Maurício Salemme e Diego Singolani assumem Santa Casa na próxima segunda

COMPASSO DE ESPERA — Interventores assumem a Santa Casa no dia 13

Presidente da Codesan e secretário da
Saúde já negociam contrato com a Unimed
e fazem a transição com atual diretoria 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O prefeito Otacílio Parras (PSB) definiu na segunda-feira, 30 de dezembro, os nomes que vão comandar a Santa Casa de Misericórdia durante o período de intervenção municipal. O decreto só deverá ser publicado no final de semana, mas, em pronunciamento na rádio Difusora, Otacílio anunciou que Maurício Salemme Corrêa será o interventor do hospital, enquanto Diego Singolani será o novo administrador. A posse deverá ocorrer no próximo dia 13, uma segunda-feira.

Maurício é o atual presidente da Codesan e deverá acumular as duas funções, já que não terá remuneração como interventor. Já Diego Singolani vai deixar a secretaria da Saúde, mas o prefeito não definiu ainda um substituto. O nome deve ser anunciado nos próximos dias.

Na prática, o secretário Diego Henrique Singolani Costa, que é virtual candidato a prefeito pelo grupo governista, vai administrar o hospital que enfrenta a maior crise de sua história. Cabe a ele definir o novo perfil técnico da Santa Casa e gerenciar toda a questão hospitalar. “Vou deixar a secretaria para ser o administrador. Nosso objetivo é organizar o fluxo da Santa Casa, procurando equilibrar as finanças. Tudo será feito sem qualquer politização”, afirmou.

Diego, na verdade, está de volta à Santa Casa depois de seis anos, pois deixou o cargo em 2014 para assumir a secretaria de Saúde. Hoje com 32 anos, ele começou a trabalhar no hospital aos 16. Formou-se em Administração Hospitalar e agora terá a missão de devolver a paz à entidade, já que o relacionamento entre corpo clínico e diretoria se deteriorou com o agravamento da crise financeira.

Maurício Salemme vai acumular as funções de presidente da Codesan e interventor da Santa Casa. No hospital, ele será o responsável pelo setor financeiro e já antecipou que vai tentar renegociar as dívidas. “Ninguém queria esta situação, mas não havia outra solução a não ser a intervenção. Aceitei porque devemos nos unir para tirar a Santa Casa desta crise”, afirmou Maurício.

O ADMINISTRADOR — Diego Singolani vai cuidar de toda a administração da Santa Cruz, onde já trabalhou

Transição

Apesar do recesso das repartições públicas municipais, Maurício Salemme e Diego Singolani já participaram de várias reuniões com a diretoria e o prefeito Otacílio Parras — que reassumiu o cargo após um período de férias —, além de negociações com a cooperativa Unimed. Na verdade, a Unimed é o segundo maior cliente da Santa Casa e as negociações envolveram um maior aporte de recursos para o hospital.

Singolani e Salemme dizem que o momento atual, pouco antes da intervenção propriamente dita, significa uma “transição” para a nova administração. “Na próxima semana vamos dar mais informações à imprensa. É que estão começando agora as negociações internas e tem muita gente divulgando até fakes news. Disseram até que o hospital iria fechar as UTIs adulto e neonatal, o que é um absurdo”, disse Diego.

Segundo o secretário, as mudanças no hospital serão internas e o atendimento ao público — particulares, SUS ou conveniados — vai continuar sem qualquer alteração.

Rombo é maior

Diego Singolani, porém, antecipou números que mostram que a situação se agravou. O déficit mensal está próximo de R$ 470 mil e as dívidas acumuladas se aproximam de R$ 5 milhões em janeiro.

Ele disse que, na “transição”, a atual diretoria está colaborando e, inclusive, tomou algumas atitudes necessárias. “Há muita conversa e tudo está sendo planejado, sem atropelo”, disse.

A prioridade, segundo Diego, é equilibrar as contas para estancar o déficit. “Isto só se consegue com novas receitas e a prefeitura deverá compor na parte financeira de acordo com aquilo que já havia sido proposto”, afirmou o secretário. 


Salemme admite que pode ganhar
‘alguns inimigos’ durante a gestão

Ele contou que isto aconteceu com o pai,
que foi colaborador durante décadas

O INTERVENTOR — Maurício Salemme será responsável pelas finanças

O atual presidente da Codesan, Maurício Salemme Corrêa, será ao mesmo tempo o interventor da Santa Casa de Misericórdia — e sem remuneração. Ele aceitou a indicação do prefeito, segundo revelou ao jornal, porque está preocupado com a situação do hospital do qual seu pai, o escritor e colunista do DEBATE João José Corrêa, que foi colaborador durante muitos anos.

Maurício já foi empresário e tem experiência em entidades. Foi membro da diretoria do Icaiçara Clube e é atualmente participa da direção da Apae. “Quando surgiu esta situação da Santa Casa, eu aceitei porque, em primeiro lugar, não é um cargo remunerado. Mas é um grande desafio que todos nós devemos abraçar”, afirmou.

O futuro interventor admitiu que a situação caótica da Santa Casa não vai mudar a curto prazo. Ele concordou que um dos problemas que deve ser estancado é a péssima relação entre médicos e a atual diretoria. “Eu estou disposto a conversar, mostrar que estamos no mesmo barco. A hora é de juntar forças para sair desta situação. O fato é que o hospital não existe sem médico e sem paciente. Precisamos juntar todos neste esforço”, disse.

Maurício Salemme disse que não vê problemas em acumular a função de interventor com o cargo de presidente de uma autarquia. “Poucos sabem, mas eu chego na Codesan antes das 7h da manhã, junto com muitos funcionários. Então, vou me planejar para que, no final da tarde, eu possa me dedicar exclusivamente à Santa Casa”, afirmou.

Ele admitiu que vai se deparar com uma situação financeira muito difícil, uma vez que nem mesmo o 13º salário dos funcionários do hospital foram pagos. “É, sem dúvida, um desafio”, disse, anunciando que vai procurar renegociar dívidas. A nova direção vai tentar pagar os salários ainda em janeiro.

Maurício contou que já recebeu mensagens de alguns médicos que, segundo ele, foram incentivadoras. “Sabemos que não haverá dinheiro no início, mas estamos recebendo apoio. Afinal, ninguém quer ver a nossa Santa Casa fechando as portas”, disse.

Sobre a possibilidade de obter financiamentos do Governo Federal para estancar o rombo financeiro de imediato, Maurício afirmou que esta hipótese só será estudada após analisar a fundo a situação da Santa Casa. “Vamos nos inteirar totalmente do assunto antes de qualquer decisão. Acho que o primeiro passo é tentar sanar muitas coisas que estão acontecendo no momento”, explicou.

Uma delas, de acordo com o futuro interventor, é apaziguar o clima de tensão no hospital. Maurício anunciou que vai marcar uma reunião com os médicos e funcionários para explicar os objetivos da nova direção e quais serão os planos para saneamento financeiro. “Ainda não sabemos a receptividade das medidas, mas precisamos de união”, ressaltou. “Nosso objetivo é apaziguar qualquer clima tenso. Afinal, ficar brigando não leva a nada neste momento”, avaliou.

Salemme conta que o pai, o escritor João José Corrêa, se dedicou muitos anos à Santa Casa e, inclusive, “ganhou” alguns inimigos. Questionado se irá repetir o trabalho do pai, Maurício disse que “o lombo está preparado”. “Sei que não agradarei todo mundo, mas não vou fugir da raia”, afirmou o presidente da Codesan.


Otacílio escolheu os nomes porque não poderia nomear ele mesmo

Otacílio queria ele mesmo
como futuro ‘interventor’

Ao anunciar os nomes que deverão comandar a Santa Casa, o prefeito Otacílio Parras (PSB) fez questão de lembrar que a intervenção será administrativa, inclusive a pedido da atual diretoria. “O município não vai assumir nenhuma dívida da Santa Casa. Vamos melhorar a gestão para que, a curto, médio ou longo prazo, o hospital tenha condições de pagar suas dívidas”, explicou. “Entrar [na Santa Casa] e já pagar todos os atrasados é impossível”, disse.

Otacílio avaliou que o hospital só deverá estar plenamente saneado em cinco anos. Segundo ele, o demonstrativo apresentado pela diretoria da Santa Casa, de um atraso a fornecedores de quase R$ 4 milhões, vai aumentar em janeiro, já que o 13º salário também não foi pago. “Serão mais de R$ 5 milhões”, afirmou.

O prefeito revelou que queria nomear a si mesmo como interventor. “Aí eu dava minhas pauladas e resolvia, sem ninguém por trás”, disse. No entanto, ele ressaltou que talvez isto poderia não ser visto com bons olhos pelo Ministério Público.

Otacílio contou, ainda, que tinha intenção de nomear o secretário Diego Singolani como interventor. “Mas, neste caso, ele prestaria contas a si mesmo, o que descartou esta possibilidade. Então, a decisão foi nomeá-lo administrador provisoriamente”, afirmou.

Sobre Maurício Salemme como interventor, o prefeito disse que ele já ocupou vários cargos na administração e equilibrou financeiramente a Codesan. “Ele vai cuidar da parte financeira e contábil para que o administrador, este sim, cuide do hospital”, disse.

O prefeito disse que a intervenção na Santa Casa “foi a grande decepção” durante os seus sete anos de administração em Santa Cruz. 

  • Publicado na edição impressa de 05/01/2020
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