Primeiro desafio da intervenção será o 13º

DE SAÍDA — André Mello vai deixar a administração para Diego Singolani

Déficit mensal e dívida acumulada da
Santa Casa são maiores do que o
anunciado pela diretoria do hospital

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A dívida em aberto com salários e fornecedores, anunciada pela atual diretoria num relatório entregue à Câmara no início de dezembro, é maior do que a anunciada. A conclusão é do prefeito Otacílio Parras (PSB) e do secretário de Saúde Diego Singolani, após análise dos primeiros documentos do hospital apresentados pelo presidente Hélio Pichinin e membros da diretoria. Se o déficit anunciado era em torno de R$ 300 mil ao mês, na realidade o rombo chega a R$ 470 mil. Já as dívidas vencidas, de acordo com avaliação do prefeito, vão superar R$ 5 milhões em janeiro. O valor estimado pela atual diretoria no mês passado era R$ 3.579.492,65. Para piorar, o hospital não pagou o 13º dos funcionários.

Durante a semana passada, o futuro interventor Maurício Salemme Corrêa e o administrador do hospital nomeado, Diego Henrique Singolani, se reuniram com dirigentes da Santa Casa para fazer um “raio-X” da verdadeira situação do hospital. Somente a partir deste levantamento é que eles deverão anunciar um projeto para tentar tirar a entidade da maior crise financeira de sua história.

O prefeito Otacílio Parras (PSB) criticou a postura da atual diretoria em procurar a Câmara, no mês passado, para apresentar um relatório da situação financeira. “Eles deveriam ter procurado a prefeitura”, disse. Otacílio lamentou a situação do hospital, afirmou que queria ter assumido o comando da Santa Casa há cinco anos e avaliou que “ainda dá tempo” para solucionar o problema.

A intervenção, entretanto, embora anunciada no dia 16 de dezembro, só começa oficialmente dentro de uma semana. Neste período de “transição”, houve uma deterioração no relacionamento entre a atual diretoria e o corpo clínico. Além das demissões dos coordenadores das UTIs e do diretor técnico, o diretor-presidente Hélio Pichinin acusou médicos de estarem defendendo “interesses corporativos”. Em contrapartida, houve denúncias de falta de medicamentos e de aluguel de aparelhos sucateados.

‘Tensão normal’

Nesta “guerra de informações”, o atual administrador da Santa Casa, André Mello, concorda que há uma tensão interna no hospital, mas que não prejudica a entidade. “Isto é normal nas relações de trabalho. Mas nós estamos buscando o bem-estar e o consenso a favor da Santa Casa”, explicou.

O advogado disse que muitas questões deverão ser resolvidas após a intervenção. “Haverá mudanças e até enxugamento do quadro. Mas determinados interesses pessoais não podem condizer com o objetivo do bem maior que é a Santa Casa”.

O advogado vai deixar o hospital na próxima quarta-feira, 8, quando termina seu contrato como administrador. Entretanto, ele anunciou que deve colaborar por mais alguns dias.

André Mello disse que a transição já resultou em várias reuniões e a exposição da situação contábil. “Tudo está sendo feito com transparência e maior lisura possível”, afirmou. Sobre Maurício Salemme e Diego Singolani, indicados pelo prefeito para comandar a Santa Casa a partir do dia 13, o advogado disse que ambos são qualificados.

“São pessoas extremamente capacitadas. O Maurício tem vasta experiência administrativa e o Diego, por exemplo, já foi até funcionário da Santa Casa”, afirmou.


INCERTEZAS — Hospital de Santa Cruz tem salários atrasados e ainda não pagou o 13º aos médicos e funcionários

Nomes agradaram ao corpo clínico,
mas funcionários temem incertezas

As nomeações de Maurício Salemme Corrêa como interventor e Diego Singolani como novo administrador da Santa Casa foram recebidas positivamente pelos médicos que atuam no hospital. A constatação é do diretor clínico André Coelho. “São pessoas em quem confiamos, são conhecidos e tiveram, até o momento, uma boa aceitação e consenso”, disse.

Entretanto, o médico admite que a transição será difícil e há um “futuro de incertezas”. Segundo ele, os profissionais — médicos e funcionários — estão trabalhando com a sensação de não recebem salários. “E nem há perspectiva, pois a atual administração nunca conversou sobre o acerto dos atrasados e da produção que não foi paga. Só nos resta aguardar um posicionamento da nova direção”, afirmou. Ele lembrou que os funcionários não têm sequer previsão do acerto dos atrasados e do 13º salário.

André Coelho disse que todos reconhecem que a crise não será resolvida imediatamente. “O importante é ser traçado um projeto de acerto e planejamento para o futuro. O corpo clínico está desmotivado pela falta de perspectiva, mas esperançoso de que os problemas serão aos poucos resolvidos”, afirmou.

O grande receio dos profissionais e funcionários, segundo o médico, é que o agravamento da crise financeira restrinja alguns setores do hospital, que seriam obrigados a reduzir leitos e procedimentos. “Estes setores são de vital importância para todos, médicos e munícipes, que foram conquistados depois de muita perseverança de toda uma sociedade envolvida e motivada para uma evolução do hospital, como as UTIs”, declarou. “Esperamos que a nova diretoria que vai assumir tome decisões conjuntas com os médicos e nos forneça condições de trabalho, além de um plano de acerto dos salários e produções atrasadas”, disse.

  • Publicado na edição impressa de 05/01/2020
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Proprietário e Editor do Jornal Debate