Prefeitura exonera primeiro agente de trânsito da cidade

PERSEGUIÇÃO — Teodoro se diz vítima de perseguição do governo

José Teodoro Andrade
denuncia perseguição e 
vai
à Justiça pela segunda vez

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O agente de trânsito José Teodoro Andrade foi exonerado do cargo concursado na prefeitura depois de sofrer um processo administrativo. O ato foi publicado no sábado, 28 de dezembro, e cita o despacho do prefeito em exercício, Benedito Batista Ribeiro, favorável à demissão. Teodoro foi o primeiro agente de trânsito municipal, ingressando no cargo permanente em 2012. Ele alega perseguição e diz que vai recorrer à Justiça para buscar a reintegração.

Teodoro, aliás, já foi exonerado no primeiro mandato de Otacílio Parras (PSB), logo que multou o próprio prefeito por infração de trânsito. No entanto, ele recuperou o cargo através de uma ação judicial. Mas nunca recuperou o respeito de seus superiores, os diretores nomeados por Otacílio. Nos bastidores, o prefeito reclamou inúmeras vezes que Teodoro é simpatizante da oposição, razão pela qual quer vê-lo fora da prefeitura. O agente sofreu várias punições ao longo do atual governo, comprometendo, inclusive, sua renda. “Penso que a estratégia era de me levar a reiteradas punições até o desfecho capital da exoneração”, disse o agente na semana passada.

A portaria de exoneração não informa o motivo. Procurado, o próprio Teodoro contou que ele foi acusado de ter apresentado uma “falsa declaração de acidente de trabalho”. O agente de trânsito garante que o fato é verdadeiro e provocado pela própria administração, através do Demutran (Departamento Municipal de Trânsito), que não forneceu os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) obrigatórios. “Pisei num pequeno prego, pois determinaram que eu fizesse a fiscalização a pé”, disse.

O acidente aconteceu no dia 17 de agosto de 2018, uma sexta-feira. No entanto, no dia 21 Teodoro teve complicações no ferimento — é diabético. Ele disse que o Demutran só forneceu EPI — como botas, por exemplo — três meses depois. “Eu comprava as botas do meu próprio bolso. No dia do fato, como as botas já estavam desgastadas, eu usava um sapato social preto”, contou.

Com o pé infeccionado e sob risco de amputação, Teodoro disse que procurou socorro médico em Santa Cruz e até em Sorocaba. “Tanto foi verídica minha lesão que a própria perícia do INSS reconheceu e deferiu o benefício de auxílio doença até a minha alta médica”, afirmou. Ele exibiu à reportagem fotografias do ferimento e atestados médicos que o afastaram do trabalho.

Segundo Teodoro, pelo menos um médico de Santa Cruz do Rio Pardo alertou que o caso era de internação. No entanto, ele evitou o conselho porque disse temer “quem realmente manda na Santa Casa”. O agente disse que “temia pela própria vida”. Em seguida, disse ter provas de que passou pela UPA de Santa Cruz e de Sorocaba, além do posto de saúde da vila Mathias.

José Teodoro Andrade também tem documentos que comprometem a decisão do município. São declarações assinadas pela diretora de Recursos Humanos, Suzana Barbosa Moreira da Silva, atestando o último dia de trabalho antes da licença médica. Os dois documentos têm datas diferentes. Por medida de precaução, segundo afirmou o agente de trânsito, ele autenticou a assinatura da diretora em cartório caso alguém duvidasse da veracidade de um dos documentos.

O agente disse que não conseguiu constituir advogado em razão do custo dos honorários. “Eu fiz a defesa de próprio punho. Aliás, até o computador eles retiraram a minha sala para cercear e dificultar minha defesa, inclusive comunicando aos demais agentes a razão da medida”, disse.

Agora, após ser exonerado, ele vai precisar de um advogado para buscar sua reintegração na Justiça. Vai repetir o mesmo caminho da batalha que empreendeu há alguns anos. 


Polêmico, agente já multou a si mesmo

José Teodoro Andrade foi a sensação do trânsito em 2012, quando era o primeiro agente municipal de trânsito concursado de Santa Cruz. Saiu até na televisão. Meses depois, houve a troca de governo e Otacílio Parras, o novo prefeito, deu uma curta instrução ao agente: fazer as pessoas obedecerem a lei, sem distinção partidária ou social. Teodoro cumpriu o recado à risca e multou o próprio prefeito e alguns secretários. Passou a ser “persona non grata” da atual administração.

Chegou a ser exonerado, mas foi reintegrado por força judicial. Em 2016, virou alvo de elogios e críticas por informar que havia multado a si mesmo. Segundo ele, uma “distração” provocou uma infração de trânsito e Teodoro achou que deveria dar o exemplo.

Em 2018, nova polêmica. O agente estacionou a camionete do Demutran com duas rodas sobre uma calçada na Conselheiro Dantas. Segundo ele, como se trata de um “calçadão” estreito, ele foi obrigado a parar rapidamente para multar um caminhão. A Polícia Militar foi acionada por populares e Teodoro foi multado. Além disso, sofreu nova sindicância na prefeitura e foi criticado em emissora de rádio pelo prefeito Otacílio Parras.

Um ano depois, a multa foi anulada pelo Cetran (Conselho Estadual de Trânsito), tendo em vista que carros de fiscalização podem estacionar de maneira incorreta para exercer alguma operação de urgência. A norma está prevista no Código de Trânsito Brasileiro.

Defensor fervoroso dos animais e ativista da causa, José Teodoro sempre se posicionou nas redes sociais. Em suas postagens, chegou a criticar a falta de EPIs aos funcionários do Demutran e, em certa ocasião, escreveu que seu antigo superior hierárquico, de saída do cargo, disse que não iria “sossegar” enquanto Teodoro não fosse demitido. 

  • Publicado na edição impressa de 05/01/2020
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