Beto Magnani: ‘O morcego’

O morcego

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

Fazia mais de meia hora que aquele garoto estava olhando para as árvores no meio da escuridão. Nem viu os fogos do réveillon. Me aproximei para perguntar se estava tudo bem, não resisti.

— Feliz ano novo. — felicitei como forma de aproximação (era a frase do momento).

— Sabia que o Morcego é o único mamífero que voa? — me perguntou o garoto inusitadamente, sem desviar os olhos das árvores e sem agradecer a minha felicitação.

— Sabia sim. E Ornitorrinco é o único mamífero que bota ovo. — respondi tentando surpreende-lo também.

— Tá enganado. São dois: o Ornitorrinco e a Equidna. — respondeu ainda sem olhar para mim.
— Pensei que fosse só o Ornitorrinco.

— A Equidna é parecida com o porco-espinho. Bota ovo. E depois amamenta o filhote. Como o Ornitorrinco.

— Mas porque falou do Morcego?

—Estou tentando vê-los. Já vi oito até agora. Ali é um lugar que eles se escondem por causa dos fogos. É fantástico o jeito que voam. Mudam de direção de repente. Como o beija flor. Adoro. E os dois se alimentam de forma parecida. Sugam.

— É mesmo. Você gosta de histórias de vampiros?

— Como todo bom católico.

— Sei.

— Sou padre.

— Padre? Parece muito jovem pra ser padre.

— Minha ordenação é no próximo dia seis.

— Dia bom. Dia de Reis.

— Sim.

— Pensei que pudesse estar precisando de ajuda. Te vi de longe paralisado. Vim ver se estava bem.

— Sim. Tá tudo bem. E com você?

— Tudo. Bem… vou indo… Tchau… Novamente feliz ano novo.

— Não comemoro os anos. Comemoro o dia.

— Sim… claro… Concordo, temos que comemorar todos os dias de nossa vida. E agradecer por cada pão, como diz Jesus.

— Antes do pão, comemore que você existe. Comemore cada respiração. E comemore cada dia que você pode apreciar a beleza do mundo ao seu redor, como diz Prem Rawat.

— É…

— Prazer. Padre Jorge.

— Prazer. Magú. Bem… Vou indo… Tchau… Espero que encontre o que procura. Mais Morcegos.

— Cuidado quando encontrar o que procura. Talvez seja apenas um monte de merda, como diz Peter Brook. Pense sobre isso.

— Sim… É… Obrigado… Digo, pela dica. Terei cuidado.

Ele não me olhou. Olhos incessantemente fixos para frente em busca dos Morcegos. Mas, apesar disso, parecia estar bem. Sábio. Saí dali melhor. Já além do ano novo. Pensei na possibilidade dele não existir e ser apenas efeito do Champanhe. Voltei para conferir. Sim, ele ainda estava lá. Foi real. Ele existe. Duas corujas passaram voando. Fui atrás de mais uma taça. 
(Magú)

  • Publicado na edição impressa de 05/01/2020
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