Geraldo Machado: ‘O dialeto caipira’

O dialeto caipira

* Geraldo Machado

“O medo é uma
presilha, e o medroso
não sai do lugar”.

Eu não queria escrever deste modo, assim e assado, sob este sol que assa e arrebenta mamona. O tema era outro: eu ia navegar, como faziam os portugueses, “por mares nunca dantes navegados.”As naus eram muito vulneráveis, frágeis como a jangada de Ulisses. As naus tinham leme e, os nautas, o lema de Sagres: “Navegar é preciso.” As lágrimas das mulheres não salgam mais o mar português — e de Poseidon, o Mar Oceano. Fernando Pessoa também não chora mais. Chegou a vez de nós chorarmos, o seu choro em versos memoráveis. Os lusitanos, desde Camões, sabiam como Tomás Ribeiro que “…Portugal é o jardim da Europa à beira-mar plantado”, dessa terra (“…do sol oásis reservado”).

Eu estou a escrever o que não é “Segredo de Estado”, confidência. Para o DEBATE é público e publicável — a obviedade das coisas simples, ditas, não por um jovem cioso de história. Vem de um escriba que gosta delas: da história e das letras.

Acordo do sono eterno o sábio de “A Lanterna na Popa” — Roberto Campos — para sonhar com a verdade universal, que ele entendia ser teologia e filosofia, comum e exemplar. “A verdade prefiro nua e crua, pois me considero mais um esteta que um canibal.”

Eu, de tempo em tempo, venho (volto) à tona. Monótono? Duas vezes? Quem delas vai saber e julgar? Os sabidos? Para contar fatos (não, feitos) da história do “tempo do onça”. Da onça pintada, da parda (suçuarana), nunca. Elas comem quem fica: o medroso. Ela pega quem corre — o que tem medo.

A Dona Cora Coralina, minha contemporânea, lá de Goiás Velho, contava para os novos: “A estrada da vida pode ser longa e áspera. Faça-a mais longa e suave caminhando, cantando com as mãos cheias de sementes.Vamos lá: o quê, sobre o quê era o meu tema? Temerário? Não ! Era algo sobre a história do Chavantes da Verinha — a verdadeira. Ela, nesse tempo — do meu tempo —, ainda era gente em Cambará e cá, como nós outros. Apátridas, em modo e lugar. Está comigo no livro que não tomei, emprestei da Maria Helena Cadamuro. Rica de achados e Machado. Ela ajudou-me a achar um machado que não corta, rabisca. Ela cuida do Museu da cidade.

No trabalho ela se esconde, rija. É a sua fortaleza. Esse LOUVRE — que não é francês, tem cada Muro… Trocadilhando de assunto, vou falar dos “costumes”, histórias, não dos vulgares. Vou falar do homem que fazia roça — o roceiro. Leitor: na roça há um vernáculo que Amadeu Amaral chamava de “DIALETO CAIPIRA”. Falado mas não escrito.

Mudando de assunto, quando, no sítio, vinha à luz um filho, “minino home” e, em seguida, uma “mininamuié” (aqui vale o dialeto do Amadeu), sempre acontecia de madrugada. Após o parto, à noite, o marido ficava afoito e feliz. Pegava a cartucheira pendurada num gancho na parede e disparava cincotiros para o ar. Era para avisar os vizinhos, se a criança fosse um menino. Três tiros se fosse menina. Os vizinhos respondiam com uma salva: cinco ou três. Para os quarenta dias de dieta, a mulher se calçava com meias de algodão e chinelas. Não torrava café nem lavava roupa na bacia. Só comia caldo de galinha com farinha de milho. O marido ficava, para mistura, com os pés dosfrangos e as asas. Os frangos eram reservados meses antes, para a ocasião.

O pai ia à cidade comprar um vidro de óleo de rícino para dar à mulher e ao piazinho — menos à sogra, haja vista. Não registrava o filho para escapar de “servir o governo”. A menina, premeditando a “Lei Maria da Penha”, mesmo sendo “di menor” — falo aqui desaporguesadamente. Se for para apanhar, não case. Estou de brincadeira. Na roça o marido nem bate nem apanha. Ele rastelava e a mulher abanava o café. De tarde punha o filho na cintura e trazia a lenha. Numa rodilha na cabeça levava o almoço para o marido, suado, na enxada, de sol a sol. Não existia “Maria da Penha” para homem. Se dava de valente, apanhava da mulher e da sogra, que desempenhava o seu papel de graça.

Por isso ela foi morar com a filha, logo que ficou viúva e desamparada da pensão.

Finalizando, e como de costume, faço algumas considerações gratuitas. Os “Bertolinos” da roça (veja meu livro “Na Garupa da Memória” — Pág. 70). Se não me falha a memória. O Bertolino Verônica morria de medo de “servir ao Exército”, e tudo que fosse Governo. Isso veio da Europa, trazido pelos imigrantes. Vejam estes versos que, para abrir com chave de ouro esse resgate ao brioso caipira do dialeto.

Fecho com trinco de cera a porta do analfabetismo endêmico (a herança maldita) dos demagogos, seja o cândido, seja o candidato. Eles entram pela porta que fecha limpa e abre suja. São de cera, a chave a lei. Leiam estes versos traduzidos do idioma espanhol:

“No tempo das bárbaras nações, Pendiam das cruzes, os ladrões; Agora, no século das lluzes, Do peito do ladrão pendem as cruzes.”

Estas últimas cruzes são as comendas com seus “comensais”. T’esconjuro! 

* In memoriam

* Publicado originariamente em 2018

 

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Proprietário e Editor do Jornal Debate