Prefeito agora se refere à ditadura militar como ‘revolução’ de 1964

‘MARCA’ — Otacílio Parras disputou três eleições pelo PT e ainda fez campanha para Lula e Dilma Rousseff

Declaração de Otacílio, um
ex-petista, foi feita em pronunciamento
na rádio Difusora na sexta-feira, 10

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Em pronunciamento na rádio Difusora na sexta-feira, 10, o prefeito Otacílio Parras (PSB) usou o termo ‘revolução’ para se referir ao período do Golpe Militar que deu início a uma ditadura que durou 21 anos, torturou e matou opositores.

Otacílio fez a referência enquanto comentava o motivo pelo qual, na condição de médico, nunca esteve na administração da Santa Casa, que estará sob intervenção do município a partir de amanhã.

“Está no próprio estatuto da medicina. O médico pode conversar com os administradores, mas é impedido de exercer diretamente o cargo”, disse o prefeito.

Questionado sobre se nunca teria ocupado o cargo de administrador, Otacílio negou e disse que “nem mesmo se interessou”. Ele disse ter se candidatado uma vez ao cargo de diretor-clínico. “Mas foi a anticandidatura”, resumiu Otacílio.

O prefeito se referia ao ex-deputado Ulysses Guimarães, da “velha guarda” emedebista, que nas eleições presidenciais de 1974 lançou-se como “anticandidato” contra Ernesto Geisel.

Na época, o Ato Institucional número três (AI-3) determinara que o processo eleitoral fosse indireto — ou seja, o presidente seria escolhido pelo Congresso.

TENDÊNCIA – O prefeito Otacílio Parras, que antes falava em ditadura militar, agora diz “revolução de 1964”

Como a maioria dos parlamentares pertencia à Arena, partido da ditadura, já era certo que o general Ernesto Geisel sairia vencedor.

“Então, eu fui uma vez anticandidato a diretor-clínico do hospital”, disse o prefeito. Otacílio explicou que, na época, o candidato único ao cargo afirmava concorrer por sacrifício.

“Daí a minha candidatura. Se o outro não quisesse, de fato, disputar a eleição, ele desistiria”, prosseguiu.

O outro não desistiu, e o prefeito garante que “perdeu por um ou dois votos” sem nem mesmo ter apresentado uma chapa contendo vice ou outras indicações.

O termo usado por Otacílio para se referir à ditadura causa, no mínimo, estranheza. O partido a que é filiado, o PSB, apoiou a posse do então vice-presidente João Goulart na década de 1960, quando o presidente Jânio Quadros renunciou. Após o golpe, em 1964, o PSB foi dissolvido.

Denominado Partido Socialista Brasileiro, a sigla foi cassada na ditadura com o AI-2, que instituiu o bipartidarismo. Em 1985, no início da redemocratização, filiou-se ao PSB ninguém menos do que Rubem Braga, considerado o maior cronista brasileiro, que também foi jornalista dos Diários Associados.

Além disso, Otacílio Parras foi filiado ao PT, partido pelo qual disputou três eleições e que também teve, em sua história, ícones de combate à ditadura, como Plínio de Arruda Sampaio, que foi exilado pelo regime. 

  • Publicado na edição impressa de 12/01/2020
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