Pascoalino: ‘Sem falar na Tonia Carrero’

Sem falar na Tônia Carrero

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Dois pesos, duas medidas. Parece conversa de armazém de secos e molhados, mas não é. Hoje me ocorre que o tempo é um para o homem, e outro, completamente diferente para tudo o que não é humano. Curiosamente, o tempo passa mais depressa para as coisas do que para as pessoas.

A história do trem em Santa Cruz ilustra bem isso. Quando aqui chegou em 1908, se equilibrando no espigão da Figueira, o trem de ferro não foi recebido por um único bico de luz elétrica. Não havia um único poste na plataforma e nem na cidade que prosperava do outro lado do rio. No pátio da estação, nenhum carro de praça. O trem entre nós, portanto, fez-se antes da luz e do automóvel. A ilusão não era um privilégio dos caipiras dessa boca de sertão. Por aqueles dias, nos Estados Unidos, Henry Ford expôs a um advogado a ideia de produzir automóveis em série, por meio de uma fórmula que mais tarde ficaria conhecida como linha de montagem. Ford sonhava produzir milhões de unidades do seu protótipo, mas o advogado o advertiu: “O automóvel é só uma novidade. O cavalo está aqui para ficar”. Não consigo deixar de pensar nesse conselho quando vejo carros com aquele adesivo da OAB: “Consulte sempre um advogado”.

Num ponto as coisas se parecem com as pessoas: quando chegam, parece que é para sempre. O caminho de ferro que ligava Santa Cruz à Sorocabana, tão sólido e tão caro ao município, no entanto, durou menos de 60 anos. Sessenta anos — a idade de certas mulheres bonitas da televisão.

O ser humano quando vem ao mundo também faz muito barulho. Aos olhos apaixonados dos pais, aquela belezinha parece ser para sempre. Mas é só uma ilusão: todos acabaremos corroídos em doses diárias pelos ácidos do que fomos. Se o DEBATE anunciar um prêmio para os santa-cruzenses nascidos antes de 1908, é capaz de formar fila. Oscar Niemeyer não é santa-cruzense como Orlando Villas Bôas, mas é de 1907. E ainda trabalha novos projetos de concreto e de sonho em seu escritório de arquiteto — todos os dias, até altas horas da noite, reza a lenda. Ora, quando Niemeyer veio ao mundo o trem ainda não tinha chegado a Santa Cruz, e o mundo ainda desconhecia o plástico e o relógio de pulso! Sem querer parecer indiscreto, em 1907 não existiam nem soutiens!

Quem vê o doutor Roberto Marinho dentro de um terno italiano, todo penteadinho, vai acreditar que ele é mais velho do que o calhambeque? Pois o doutor Roberto viu nascer o cachorro-quente, o rádio a válvulas, a vitrola e o avião. Quando o doutro Roberto nasceu, no Brasil ainda não existiam nem japoneses — e nem carteira de identidade!

Enfim, se você ainda não se convenceu de que as coisas são mais perecíveis do que nós (o que em muitos casos é lamentável), tente descobrir o que foi que a sua mãe ganhou de presente de casamento. Depois, ponha na balança com aquilo que você vê todos os dias no espelho do banheiro. Quem está mais inteiro? 

* Publicada originariamente em 17/03/2002

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Proprietário e Editor do Jornal Debate