A ciência é delas

Franciele Dias diz que papel da Suzuki para chegada do arroz na cidade foi primordial

Em tese de doutorado, Franciele
Dias analisou a economia da
região baseada no agronegócio

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Foi em julho de 2019 que a santa-cruzense Franciele Miranda Ferreira Dias recebeu seu título de doutora em Geografia pela Universidade Estadual de Londrina, a UEL. Havia apresentado a tese “Agronegócio e Especialização Produtiva” — que analisou a economia da região pautada no agro — três meses antes, em 17 de abril daquele ano.

O estudo de Franciele compreende um período extenso — do século passado aos dias atuais. A tese mostra, por exemplo, como as “Máquinas Suzuki” tiveram papel primordial na implantação da indústria de beneficiamento de arroz em Santa Cruz do Rio Pardo.

“A Suzuki teve relevância não só na chegada do arroz à cidade. Ela foi pioneira na técnica de seleção de grãos, e isso a nível nacional”, disse. Com uma grande concorrência nacional — sobretudo da China —, a Suzuki fechou as portas décadas depois.

Antes do arroz, diz Franciele, famílias de Santa Cruz tentaram o investimento em outros setores, entre eles o café. A antiga estação da Sorocabana era a responsável pelo escoamento do produto à região.

A elaboração da tese não consistiu apenas em livros e teorias. Franciele também visitou todas as arrozeiras do município. O que viu foi a redução da mão de obra humana. “Todos os empresários com quem conversei admitem querer reduzir custos. E, para isso, compram máquinas”, afirmou.

E a tendência não se limita às arrozeiras da cidade. A acadêmica explica que a indústria de Santa Cruz também possui, agora, outro braço: os alimentos para cães e gatos. Trata-se da Special Dog, que também tem investido no mais moderno maquinário.

Franciele Dias diz não gostar de comparações com dados, mas admite ser inevitável que a fortificação das indústrias de Santa Cruz é, em grande parte, a responsável pela melhoria nos indicadores sociais do município.

De 2000 a 2010 o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Santa Cruz cresceu de 0,672 para 0,762. A escala do IDH vai de zero a um.

Ao mesmo tempo, a acadêmica também constata em sua tese — através de entrevistas feitas com empresários — que programas como Bolsa Família não podem ser desconsiderados quando o assunto é o crescimento da economia da cidade. “Pessoas com menor poder aquisitivo passaram a ter acesso ao alimento industrializado, o que aumenta a demanda pelo serviço”, escreve.

Pelas mudanças alimentares, a própria produção das arrozeiras também se diversificou. Foram introduzidos, por exemplo, produtos como açúcar ou feijão nas indústrias. Os grãos, em geral, são comercializados no interior de São Paulo, embora há empresas que possuam mercado também no Mato Grosso do Sul, como a Guacira, que também exporta para outros países vizinhos.

Ainda assim, as arrozeiras de Santa Cruz, por si só, produzem 10% do que é consumido no Brasil.

A acadêmica também cita que as chamadas indústrias de transformação — que compreendem arrozeiras, rações animais, entre outras — são responsáveis pelo maior número de empregos de Santa Cruz. São 3.345 trabalhadores ligados a essas empresas. “E as indústrias também são responsáveis pela criação de outros empregos indiretos. Isso é o que torna a economia de Santa Cruz complexa”, diz.

Estudos

Formada pela Unesp de Ourinhos, a santa-cruzense Franciele Dias fez mestrado na Universidade Estadual de Maringá, a UEM.

Doutorou-se em Londrina, na UEL, em julho do ano passado, mas não pretende parar por aí. Já é pós-doutoranda em Geografia na UEM. 


Região se caracteriza
pela extração da cana

Cerca de 90% do território de Canitar é composto pelo cultivo da cana. A economia local, embora pautada na extração canavieira, também apresenta peculiaridades.

Parte da população vai diariamente a Ourinhos em busca de empregos em outros setores. Isso chama-se, na Geografia, “migração pendular”. “Canitar é, para muitos, uma ‘cidade-dormitório’”, diz Franciele. Ourinhos, por sua vez, possui empresas heterogêneas. “Não há especialização produtiva, ou seja, várias indústrias de um mesmo segmento”, afirma.

Mas a cidade também possui ligações com a cana, já que há usinas em seu perímetro urbano. E se Santa Cruz do Rio Pardo não escoa arroz por trens, que não existem mais na cidade, Ourinhos ainda se aproveita da linha férrea para o setor sucroalcooleiro. 

  • Publicado na edição impressa de 12/01/2020
Sobre Sergio Fleury 5866 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate