O campeão do tênis de mesa se despede

Campeão peruano diz que se despede da cidade após tentar difundir o esporte em Santa Cruz

Félix Naveda está de volta ao Peru;
desiludido, não sabe se voltará a Santa Cruz

Naveda ao lado de Gustavo Tsuboi, brasileiro quatro vezes campeão panamericano de tênis de mesa

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Detentor de vários títulos internacionais de tênis de mesa, o peruano Félix Naveda conhece Santa Cruz do Rio Pardo desde a década de 1980. Aliás, ele é cidadão santa-cruzense porque recebeu o título outorgado pela Câmara. Chegou, formou família, iniciou um projeto para ensinar o esporte às crianças e se desiludiu com os políticos que fazem promessa e não cumprem. Há algum tempo, também teve uma decepção amorosa com a mulher com quem viveu mais de três décadas. “Tive uma história muito bonita, mas não sei se tenho mais motivos para voltar a cidade que tanto amei”, disse na semana passada, quando já contava os dias para voltar a Lima, no Peru.

Aos 58 anos, Félix Naveda ficou conhecido em Santa Cruz no início da década anterior. Era campeão internacional de tênis de mesa e vivia entre a cidade e países vizinhos para competir, principalmente Peru e Paraguai. Ele conheceu Santa Cruz por intermédio da ex-mulher, que conheceu numa viagem de trem. Casou-se e resolveu morar no Parque das Nações. Foi quando decidiu implantar este esporte na cidade.

Na época, o prefeito era Adilson Mira, que demonstrou entusiasmo e fez promessas de apoio. E Félix realmente iniciou o projeto. “Na verdade, nunca fui puxa-saco de ninguém e, talvez por isso, não consegui me encaixar. Na época em que comecei a ensinar o tênis de mesa, o pessoal jogava o pingue-pongue”, contou.

Muitos jovens começaram a aprender o esporte olímpico, como estudantes de várias escolas, como “Sebastião Jacyntho”, “Arnaldo Moraes Ribeiro”, “Maria José Rios”, “Frei José Maria Lorenzetti” e outras. Félix se sentia realizado e, nas ruas, era chamado de “professor” pelos estudantes, alguns que já estavam se destacando no esporte.

O atleta de tênis de mesa Félix Naveda, durante visita à redação do jornal

“Até hoje sou chamado nas ruas por adultos, pais de famílias, que foram meus alunos”, conta Félix. Tudo aparentemente ia bem, até que o ex-prefeito resolveu acabar com a escolinha de tênis de mesa. Na época, a prefeitura havia adquirido dez mesas para a prática do esporte, além de farto material como bolas, redes e raquetes. Félix nunca soube exatamente o motivo, mas acredita ter sido a política. “E nem sei o destino deste material, que desapareceu”, disse.

“Acho que quiseram me prejudicar, mas, na verdade, prejudicaram muitas crianças, inclusive várias que haviam saído das drogas e depois voltaram”, lembra, desolado. “Santa Cruz é uma cidade maravilhosa. No entanto, também tem muitas pessoas maldosas”, afirmou.

Por alguns anos, Félix Naveda ainda tentou apoio para reativar o projeto de uma escolinha de tênis de mesa. Hoje, praticamente desistiu. “É o esporte que mais cresce no mundo — e nas cidades vizinhas”, garante. “Quem o pratica é um bom esportista, sempre será uma pessoa boa, de caráter”, avalia. “No entanto, os políticos só pensam no futebol e não apostam em outros esportes”, lamenta. Segundo ele, o tênis de mesa é um dos poucos esportes que podem ser praticados por pessoas de quatro a noventa anos.

Félix e amigo em frente ao Palácio de Assunção, do governo do Paraguai

Viagens

Félix Naveda continua viajando entre Peru e Paraguai. Aliás, ele costuma dizer que é um “peruguaio brasileiro”, já que tem identidade dos três países. “Enquanto eu tiver saúde, vou continuar perambulando para levar o tênis de mesa aos jovens.

A história do peruano, porém, sempre foi de conquistas. Aprendeu o esporte ainda menino e, aos 12 anos, já fazia parte da seleção peruana de tênis de mesa. Conquistou muitos títulos e chegou a ser eleito o melhor esportista num torneio internacional do Paraguai.

Hoje, Félix sempre é convidado “vip” de competições internacionais. No ano passado, por exemplo, acompanhou de perto os Jogos Panamericanos em Lima, no Peru, e se encontrou com lendas do esporte e jovens promissores. Conversou, inclusive, com Hugo Calderano, o melhor atleta em atividade da modalidade no Brasil e que foi dupla com ourinhenses em jogos olímpicos. “É uma pena que este esporte não exista mais em Santa Cruz. Um dia vou morrer, mas o tênis de mesa nunca morre. Quem sabe, daqui a 200 anos, tenha um Félix Naveda em Santa Cruz do Rio Pardo”, disse. 

  • Publicado na edição impressa de 09/02/2020
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