Beto Magnani: ‘A pulga’

A pulga

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— Eu achava que não existiam pulgas amestradas até meia hora atrás. Nunca vi um artista tão bom como aquele domador.

— Acredito.

— Não acredita?

— Eu falei acredito.

— Mas pelo tom deu pra entender que não acredita.

— Pra você é mais importante o tom ou a palavra?

— Você não viu o que o cara fez com a pulga?! Foi demais! Fantástico!

— Matou?

— Claro que não. Ele fez ela saltar do mini trampolim, dar três piruetas no ar e cair numa pequena cama elástica, onde ficou saltando mortais até o domador mandar voltar para a ponta do seu dedo. E depois ainda andou na cordinha bamba.

— Uau!

— Tô falando sério!

— Eu também. Eu só disse uau.

— Mas pelo tom você tá me tirando.

— Não, só estou impressionando com as habilidades da pulga. Nunca tive essa sorte de ver uma tão virtuosa como essa que você viu no circo. As do meu cachorro parecem bem tontas. Sem habilidade alguma.

— Você não tá acreditando mesmo… Vamos no circo amanhã e você vai ver. Eu vou de novo só pra te mostrar.

— E o palhaço?

— Não tem palhaço. Só artistas.

— Circo sem palhaço?

— É ué.

— Então não é circo.

— Só porque não tem palhaço não é circo?!

— E só porque o cara doma pulgas é um artista!? Ele é no máximo um bom domador. Não um artista.

— A pulga não seria nada se não fosse ele.

— Então qualquer um que faz uma coisa muito bem feita é um artista?!

— É ué. Claro que é.

— E o palhaço que faz tudo errado é o quê?

— Depois que você assistir a pulga não vai mais sentir falta do palhaço.

— Acredito.

— Eu sei que não tá acreditando.

— Eu falei acredito.

— O cara do malabares também é muito bom. Outro grande artista.
— Só porque sabe fazer malabares?

— É ué.

— Ele é só um habilidoso, como a pulga.

— Então pra você só o palhaço é artista?

— Uma vez fui num circo sem palhaço. Ele tinha morrido uma semana antes. De depressão.

— Palhaço deprimido?!

— Grock.

— Quê?

— O nome do palhaço era Grock. Todo mundo falava dele. Era o melhor.

— Desde quando depressão mata?

— Dizem que antes de morrer ele foi ao médico.

— E pelo visto não adiantou.

— O médico disse que seria bom ele ir ao circo do Grock. Que um bom palhaço poderia tirá-lo da doença.

— Palhaço é medico agora?!

— Você não ouviu a história? Presta atenção!

— Ele era o Grock e o médico não sabia. Mandou assistir a si próprio para curar a depressão.

— Que médico idiota.

— E ele morreu alguns dias depois.

— Não tinha espelho?

— O cara do malabares pode até ser um artista e não apenas um habilidoso. Vai depender da sua capacidade de cura.

— Agora você foi longe.

— Longe foi você com a pulga.

— Tô falando que você não tá acreditando.

— Eu acredito na pulga! Só não acredito no domador.

Ouvi, não resisti. Continuaram caminhando enquanto comiam as pipocas que acabaram de comprar no pipoqueiro palhaço da frente do circo. Deu vontade. Entrei na fila.
(Magú)

  • Publicado na edição impressa de 09/02/2020
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