Um ‘Brasileirão’ movimenta S. Cruz

IDEALIZADOR — Elcidi Ferreira, o ‘Piapara’, é quem organiza o único “Brasileirão” de truco de Santa Cruz; movimento no bar triplica nos dias de rodadas

Torneio é disputado com 20 clubes, em
dois turnos, e só deve terminar no final
do ano, igual ao “Brasileirão 2020”

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Em vez de comemorar um gol, os jogadores se levantam exaltados, em meio a uma pequena torcida, e gritam “truco!”. Mas, às vezes, os adversários, igualmente excitados, devolvem: “Seis, ladrão!” Agora imagine um campeonato nos moldes do “Brasileirão”, com turno e returno, contagem por pontos corridos e todos os 20 times da “Série A” na disputa. Pois é este o formato do torneio de truco mais badalado da cidade, que começou no mês passado e só deve terminar no final do ano. Até agora, o líder é o Internacional, seguido de perto pelo Goiás, Atlético-PR, Bragantino e Botafogo.

O idealizador do “1º Campeonato Brasileiro de Truco de Santa Cruz do Rio Pardo” é o dono do “estádio”, ou melhor, do “Bar do Piapara”, no bairro São José, onde os jogos acontecem. O comerciante Elcidi José Ferreira, 52, o popular “Piapara”, comanda o estabelecimento há 30 anos e sempre organizou torneios de truco. “Faço pelo menos três por ano, cada um durante aproximadamente um mês”, conta.

A gata ‘mascote’ do bar, a única que permanece alheia ao movimento dos jogos

Agora, porém, Piapara reconhece que o “Brasileirão” é o maior deles. São 40 jogadores, já que o truco é jogado em dupla, além de torcedores e apaixonados pelo jogo de baralho. É raro, mas, de vez em quando, aparece uma mulher, geralmente a esposa de algum dos jogadores, irritada, cobrando seu retorno à residência.

O campeonato foi organizado de uma forma peculiar. Cada partida tem seis “mãos”, o que significa que o empate é um dos resultados prováveis. Cada rodada pode ser anotada como “gol”, no caso do saldo ser necessário para a escolha do campeão, já que o torneio é por pontos corridos. E mais: os quatro últimos serão “rebaixados” a uma Série-B que Piapara pretende organizar no próximo ano, com mais 20 duplas.

Jogador se levanta para dar uma “trucada”

O comerciante definiu que cada dupla receberia o nome de um time de futebol do “Brasileirão 2020”. Apesar de corintiano virar palmeirense e vice-versa, o Piapara garante que não houve reclamações. “Foi tudo por sorteio”, explicou. Coincidentemente, apenas uma dupla recebeu o nome do time pelo qual torcem de verdade. É o Santos, que não começou muito bem o torneio e está na posição intermediária do campeonato.

 próprio Elcidi costuma atuar nos torneios. Palmeirense “roxo”, ele representa o Grêmio no “Brasileirão” de truco. No decorrer do campeonato, ele vai tentar fornecer camisas dos clubes para os jogadores. “O certo é, no final de cada partida, os jogadores trocarem a camisa”, diz, rindo.

Além de troféus, o campeonato oferece vários prêmios aos vencedores. Do 1º ao 14º lugar, por exemplo, haverá distribuição de dinheiro, churrascos, camisetas do bar e, claro, cerveja, muita cerveja.

O torneio movimenta o bar, especialmente nos dias de rodada. “É o meu lucro”, conta Piapara. Quando não há jogos “oficiais”, outras duplas costumam organizar pequenos torneios diários. Os prêmios? Cerveja.

O torneio deve terminar em novembro e será a única disputa entre clubes em que o Bahia, Bragantino, Fortaleza ou Ceará têm chances de conquistar o título. Piapara pensa, no próximo ano, em organizar não apenas uma “Série-B”, mas também uma espécie de Libertadores. “Quem sabe com duplas de outras cidades. É para se estudar”, afirmou o comerciante. 


ESPERA — Durante o dia e também no início da noite, duplas de jogadores aguardam sua vez para começar uma partida de truco

Campeonato tem times ‘veteranos’

O tradicional bar do bairro de São José fica praticamente lotado nos dias de rodada do “Brasileirão”. São amigos de várias faixas etárias que se reúnem a partir dos finais das tardes, agora mais assiduamente com a “desculpa” do torneio. São algumas horas para conversar, tomar uma gelada e, claro, jogar truco. Mas há regras claras, como não marcar o baralho, evitar roubar no jogo e nem pensar em arrumar confusão.

O microempresário Fernando Pinhata, 40, há anos participa dos torneios no “Bar do Piapara”. Porém, se encantou com o novo formato. “É muito interessante este modelo de pontos corridos. Favorece quem sabe jogar melhor e a técnica deve prevalecer”, afirma, como se estivesse discutindo futebol.

ESPERA — Durante o dia e também no início da noite, duplas de jogadores aguardam sua vez para começar uma partida de truco

Palmeirense, ele representa o Fortaleza no campeonato e admite que não é “craque” no truco. “Tem muita gente boa. Eu gosto é de brincar”, disse. Com um torneio longo, com quase dez meses de duração, Pinhata disse que gostou de assumir um compromisso semanal. “É gostoso. A gente sai de casa e esquece um pouco da mulher”, brinca.

O pedreiro Luiz Eduardo Rodrigues, 43, já perdeu a conta de quantos torneios disputou no estabelecimento. “Acho que desde criança”, brincou. No ano passado, faturou o tricampeonato em disputas em bares e clubes de Santa Cruz. Casado, ele contou que a mulher sabe da sua paixão pelo truco. “Mas é meio complicado. Uma vez ela já veio me buscar no bar”, contou, arrancando risos dos amigos. São-paulino, ele representa o líder Internacional no campeonato. 

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 09/02/2020
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Proprietário e Editor do Jornal Debate