Artigo: ‘Corpo de 70, cabeça de 20?’

Corpo de 70, cabeça de 20?

Nayara Moreno
Da equipe de colaboradores

Uma das frases que mais me angustia é aquela dita por idosos que têm uma vida ativa: “Tenho corpo de 70, mas cabeça de 20”. A frase tem dois significados claros. O primeiro é que ter uma mentalidade jovem é saudável. O segundo, o lado triste, é que ter uma cabeça de 70 anos é algo ruim.

Esse tipo de expressão mostra o quanto ser idoso é visto como uma situação negativa, constrangedora e vergonhosa pela sociedade e pelos próprios idosos. Quem está com 60, 70 ou 80 anos deveria se orgulhar de ter corpo e cabeça de 60, 70 ou 80 anos. Mesmo porque uma mentalidade de 70 anos pode ser saudável e jovial sem a necessidade de “buscar” essas características positivas no passado.

A tão famosa expressão “na minha cabeça não me sinto com 65 anos” é quase um desrespeito com a própria história, numa tentativa ilusória e autoenganosa de recusar a idade biológica. O idoso precisa desenvolver hábitos saudáveis e prazerosos para viver com intensidade e serenidade cada ano da fase mais madura de sua vida.

É isso mesmo. A maturidade deveria ser algo invejável e “objeto de desejo” de todos. E a real maturidade não vem aos 20 e nem aos 30 anos. Vem justamente quando a cabeça acumula décadas e décadas de diversas experiências boas e ruins, felizes e tristes.

Negar isso é sinal de imaturidade. Nada é mais bonito e charmoso que um idoso que se orgulha de sua idade e tira vantagem disso dando belas lições naqueles que ainda buscam entender determinados mistérios da vida e metem os pés pelas mãos justamente por terem cabeça de 20.

A aceitação e boa convivência com a própria idade não significa ter uma vida sedentária e pacata. Entender que o tempo passou e o mundo mudou é sinal de inteligência e essencial para adaptar corpo e mente a uma rotina saudável e satisfatória. É muito melhor ter um corpo de 70 bem cuidado e uma cabeça de 70 bem centrada.

A sociedade só vai mudar de opinião sobre os idosos quando exatamente os mais velhos se mostrarem capazes de viver com dignidade e exigirem respeito aos seus cabelos brancos. Ter vergonha da idade só aumenta o preconceito que os idosos sofrem.

É preciso mudar. Cada vez mais o Brasil caminha, estatisticamente, para ser um país de idosos. E é importante que esse pessoal tenha cabeça e corpo com a mesma idade que aparece no RG. 

Nayara Moreno
é enfermeira
pós-graduada
e Responsável
Técnica pela
AleNeto
Enfermagem 

  • Publicado na edição impressa de 09/02/2020
Sobre Sergio Fleury 5534 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate