Beto Magnani: ‘A bagagem’

A bagagem

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

Eram sete entre malas e mochilas. Cinco carregadas pela jovem e três carregadas pelo senhor ao lado. Caminhavam apressados, desviando das pessoas que lotavam a rodoviária. Eu, atrás deles, tentava chegar ao guichê de passagens. Ouvi, não resisti.

— O que você é grita tanto que não me deixa ouvir o que você diz.

— Por que você tá falando isso?

— A prática é soberana. Fala mais alto.

— Sim pai. Mas por que isso agora?

— Acabei de ver na televisão aquele moleque juiz. O seu cinismo grita. Sua má conduta é explícita e não há palavras que provem o contrário. Juiz capanga. Cúmplice de bandido! Moleque fedelho!

— Nossa, pai! Não precisa ficar nervoso.

— Preciso sim. O tempo que me resta é precioso.

— Desse jeito não vai restar mais nada. Você vai acabar tendo um treco.

— A Justiça não é nada cega para os canalhas de plantão. Eles tiram a venda para que ela enxergue muito bem os seus interesses.

— Faz sentido.

— Ouça o que eu estou dizendo. Guarde isso. Mas guarde muito bem guardado. O justo de fato procura a ustiça em todos os lugares, em todos os segundos de vida que temos por aqui. Seja justo sempre. Rebata e combata qualquer tipo de injustiça. Não estou falando de leis, de regras. Estou falando do mais simples. Do direito à vida, à dignidade, ao prazer, a caminhar, comer, espirrar, mijar, cagar, transar e tudo mais que nos da prazer nessa vida.

— Anda mais rápido pai, que o ônibus vai sair.

— Colabore com a prosperidade de todos, ajude o mundo a ser um pouco melhor enquanto estiver por aqui. Esse é o sentido.

— Eu vou perder o ônibus.

— Ouça os sábios, trabalhe, embriague-se, divirta-se e respeite todas as diferenças nas almas que encontrar pela frente. Mesmo as obscuras. Mesmo as injustas. Tolere. Respeite. Só não deixe o mundo na mão delas. Ajude para que os justos, de boa fé, conduza o giro desse planeta que nos abriga. Seja solidária. Evite o egoísmo. Exercite a generosidade.

— Por que tudo isso agora?

— Não esqueça, a prática é soberana. Faça.

— Não entendi nada agora. Só tô indo viajar.

— Ralph Waldo Emerson.

— Oi?

— O cara que disse a frase que te falei. Joga no Google quando entrar no ônibus. Preste atenção! Em guarda garota! Sempre alerta! Arrote, cuspa e vomite se precisar. Peide. Aproveite o sol. Mas ande pela sombra. Se sentir que vai cair, deite. Sonhe. Acorde. Espreguice. Alongue-se. Fortalece-se. Beba água. Troque. Absorva. Cuide-se. Chore, consterne, gargalhe. Saboreie o que vier.

— Endoidou de vez.

— Foi aquele juizinho de merda. Hipócrita. Me lembrou de te dizer tudo isso antes que seja tarde. Antes de o tempo nos engolir.

Pararam na frente da plataforma de embarque. Parei também.

— Vá filha. De aqui um abraço e vá.

Daqui a pouco tô de volta. São só quatro anos.

— Ou não. Lembrou de pegar a escova?

— Esqueci.

— Imbecil! Vai ficar banguela.

— Eu compro na estrada.

— Vai gastar pela distração. Mais imbecil ainda!

— Tchau pai. Fui.

A jovem pegou as malas que estavam com o senhor e foi. Sete bagagens e as palavras do pai na cabeça. O ônibus saiu assim que ela embarcou. O pai esperou até o ultimo momento. Esperei também. Acabei perdendo o meu ônibus. Embarquei no próximo. Com uma mochila e as palavras. 
(Magú)

  • Publicado na edição impressa de 16/01/2020
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