Artista santa-cruzense Plínio Rigon vive pânico na Itália

PRECAUÇÃO — Plínio Rigon usa máscara para evitar contaminação, mas população já não acredita na eficácia do produto

O artista plástico Plínio Rigon disse que vive
“preso” dentro da própria casa e vê de perto o medo

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Longe do Brasil desde 2014, quando deixou Santa Cruz do Rio Pardo para encontrar suas raízes familiares na Itália, o artista plástico, dramaturgo e escritor Plínio Rigon está vivendo um pesadelo em Borgoricco, na região de Pádua. “Estou proibido de sair de casa. É um sacrifício até ir ao supermercado e há regras para as filas”, disse. A Itália praticamente parou depois que a pandemia atingiu a Europa.

A Itália é o segundo país mais afetado no mundo pelo coronavírus, depois da China. Até ontem, havia mais de 18.000 infectados, com quase 1.500 mortes. Na sexta-feira, 13, o governo italiano admitiu que o índice de mortes por dia estava próximo de 250.

O país está praticamente paralisado. Não há aulas, as pessoas têm dificuldades para sair às ruas, fortemente vigiadas, algumas cidades estão bloqueadas e há pouca atividade comercial ou industrial. Todos os eventos esportivos — inclusive o campeonato italiano de futebol — foram suspensos, assim como teatro ou shows. Há leis que proíbem uma pessoa de ficar a menos de um metro da outra e os restaurantes só podem funcionar se as mesas foram dispostas umas longe das outras.

É neste cenário que mora o santa-cruzense Plínio Rigon há vários anos. O dramaturgo e escritor tinha uma atribulada agenda cultural e já lançou um livro adaptado para o italiano, abriu um curso de teatro e realizou exposições de quadros. Hoje, é um prisioneiro em sua própria residência, conforme costuma avaliar.

“Eu nunca senti uma situação dessas. A sensação é de que vai cair uma bomba e você precisa ficar dentro de casa”, disse Plínio ao jornal, por telefone, na semana passada. No entanto, o escritor disse que o italiano, diferentemente do brasileiro, é mais educado para cumprir as medidas governamentais. “Talvez seja uma coisa que vem da Segunda Guerra Mundial, a forma deles pensarem”, afirmou. Para ele, o brasileiro costuma ser irreverente e “deixar para lá”.

Na quinta-feira da semana passada, Plínio não recebeu nenhuma visita. As ruas estão vazias e ele tentou dar uma passadinha no supermercado. Porém, foi abordado na rua por militares e agentes de Saúde e aconselhado a voltar para casa. “Virou uma coisa absurda, um pavor”, avaliou.

IR E VIR — Até novembro do ano passado, o turismo ainda era forte (na foto, Plínio recebe a visita do jornalista Aurélio Alonso e A professora Silvia Morbi)

Paralisação

Não há nem mesmo atividades religiosas na província de Pádua. Segundo Plínio, até as missas foram suspensas e até as paróquias estão fechadas. O único movimento notado pelos moradores é o trânsito de caminhões para abastecer os supermercados. “Tem gente lotando o carro de comida e água, numa tentativa desesperada de fazer estoques em casa. No supermercado, há faixas no chão indicando a distância que você pode ficar da outra pessoa”, disse.

Muita gente está usando máscaras nas ruas, mas outras acreditam que elas já não resolvem. “E tem uma certa verdade. Com um surto desses no país, onde você colocar a mão pode ser uma fonte de contaminação”, explicou Plínio Rigon. Há algum tempo, ele mudou de residência, alugando uma casa na periferia de Campanha, um outro bairro da região de Pádua.

Nas ruas, quase não há carros e o silêncio contrasta com um movimento de bicicletas. “É a única coisa que as pessoas fazem, caminhar ou andar de bicicleta ao ar livre, em bosques autorizados”, contou. Plínio, por sinal, usa uma “bike” para suas idas ao supermercado.

O próprio governo estimula as famílias a permanecerem em suas casas. Neste sentido, segundo Plínio, a leitura está em alta, assim como o hábito de assistir a programas na televisão e ouvir uma boa música. “Eles dizem para todos aproveitarem o momento para estreitar o relacionamento familiar, de tirar do trágico um ponto positivo, redescobrir a forma de se relacionar”, explicou.

Mas é claro que há problemas tão sérios quando o coronavírus. A economia está paralisada, não há trabalho e ninguém sabe o que será de um futuro próximo, quando a pandemia estiver sob controle. “O homem que me alugou a casa, por exemplo, ontem estava alucinado com a falta de trabalho. Assim, estão voltando àquelas antigas atividades, como fazer uma horta”, contou.

A locomoção está totalmente reduzida. No último domingo, Plínio resolveu fazer um passeio até a montanha, na região conhecida como “pré Alpes”, um caminho turístico entre a neve que é muito procurado pelos turistas. “Estava tudo certo até que minha amiga, que iria comigo, me ligou e disse que as estradas estavam todas bloqueadas. Uma outra amiga preparou lanche e caminhou até a região, mas não pode entrar nas montanhas. Foi bloqueada na entrada”, disse.

No início da semana passada, Plínio soube que a vizinha teve febre. “Todo o quarteirão ficou assustado até que eu me atrevi, de longe, a perguntar ao marido como estava a mulher. Para alívio, ele disse que ela estava melhor porque era apenas influenza — como eles chamam a gripe comum”, contou.

Compasso de espera

Supermercado perto da casa de Plínio Rigon: sem pessoas

Plínio Rigon está traduzindo a peça “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos, para o italiano. O trabalho de meses está quase concluído, mas não há perspectiva de levar a produção ao palco. “Não tem jeito, vamos ter de parar. A gente trabalhava quatro ou cinco horas por dia e é cansativo buscar termos italianos para o texto de Plínio Marcos. Mas agora a locomoção também ficou cansativa e incerta”, disse.

O curso de teatro que o santa-cruzense implantou para crianças e adolescentes está paralisado. “Só vou poder recomeçar quando as aulas forem retomadas. Até lá, vamos conviver com este pânico”.

De acordo com Plínio, a economia da Itália vai sentir verdadeiramente os efeitos do coronavírus quando a pandemia estiver controlada. Por enquanto, para amenizar a crise, as contas de água, luz e gás estão sendo adiadas. “As pessoas não estão recebendo e o governo está ciente disso. Mas uma hora a conta chega”, afirmou. O brasileiro lembrou que o italiano, por tradição, guarda suas economias, que estão sendo usadas neste momento.

Plínio também tem um trabalho artístico numa agência de catálogos de móveis, confeccionados em várias línguas. Uma vez por semana, ele atua como consulente, sugerindo mudanças e analisando as cores através de um monitor de computador. O serviço, porém, é feito com um técnico ao lado do monitor. “Nesta semana, ele me ligou e disse que era melhor não ficarmos juntos. Como é um computador, não dá para ficar afastado. Então, foi suspenso”, disse.

Sem atividades, o artista plástico e escritor poderia até matar as saudades do Brasil — e de Santa Cruz do Rio Pardo —, até que a Itália volte a caminhar. O problema é que não dá nem mesmo para sair do país neste momento. 

  • Publicado na edição impressa de 15/03/2020
Sobre Sergio Fleury 5910 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate