Santa-cruzense que mora na Itália relata cotidiano do país

Foto tirada por Karla de jovem tocando trompete em sinal de união

Karla Pegorer Dias mora há mais de 20
anos no país; segundo ela, situação é caótica

Karla Pegorer Dias

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Sair de casa? Somente para ir ao supermercado. Há exceções, como no caso de crises de pânico por ficar muito tempo enclausurado, coisa que tem se tornado cada vez mais comum. Dormir no mesmo quarto que o marido? É coisa do passado. Um passado que dista menos de um mês. Levar o animal doméstico às ruas para fazer necessidades? É complicado. A orientação é para que se saia somente em frente à própria casa.

Assim tem vivido a família de Karla Pegorer Dias, a santa-cruzense que mora em Pésaro, na Itália, desde 2003. O país é um dos mais afetados pelo Covid-19, o novo coronavírus. Já morreram cerca de 1.500 pessoas.

Não há falta de alimentos porque o governo tem suprido o estoque de materiais de primeira necessidade. Remédios também estão incluídos.

“As pessoas estão em pânico”, resume Karla. “Elas tentam pegar o que pode”.

Em alguns supermercados é proibida a entrada de mais de 20 pessoas de uma só vez. Uma fila de espera se aglomera fora do estabelecimento.

Mas todos têm de permanecer a uma distância de pelo menos um metro de cada um. É o que determina um decreto-lei do país. A norma restringiu diversas liberdades.

Quando se vai ao supermercado, a regra exige que apenas uma pessoa de cada família possa sair de casa.

Ao chegar, o membro deve tirar todas as roupas, colocá-las para lavar e tomar um banho.

Se homens ou mulheres precisarem sair às ruas, devem estar acompanhados de um papel com a justificativa devidamente assinada sobre o motivo pelo qual está fora de casa. O descumprimento da regra pode provocar a prisão do sujeito.

Nas paredes de residências estão colados cartazes coloridos com os dizeres “Andrà Tutto Bene”. Significa “vai ficar tudo bem”. É uma maneira de mostrar esperança entre o povo italiano. As amostras são feitas pelas próprias crianças.

“A Itália tem uma cultura de reagir às crises. Acho que é pela história marcada por tantas guerras. Surge o patriotismo”, diz Karla.

Na manhã de sexta-feira, horas antes de a santa-cruzense conversar com o DEBATE, moradores de Pésaro foram às sacadas e janelas de suas casas.

Era fim de tarde na Itália. Alguns carregavam instrumentos. Outros, a própria voz. Juntos, cantaram o hino nacional e outras músicas que significam união.

Apesar da harmonia na melodia, o convívio social fora de casa é nulo. Não se vê nem os pais. Se há a suspeita de que o indivíduo possa ter sido contaminado pelo coronavírus, a solução é o isolamento durante 14 dias.

“Os familiares, neste caso, levam a comida na porta do quarto. Você pega, leva para dentro e fecha a porta. É assim”, explica.

Quando os primeiros casos de coronavírus apareceram, escolas da Itália prontamente fecharam as portas.

“Muitos jovens entenderam a medida como férias. Começaram a frequentar parques lotados. Isso pode ter contaminado muita gente por aqui”, lamenta Karla. Segundo ela, faltou senso cívico.

VAI FICAR TUDO BEM — Cartaz produzido por crianças pendurado

No início, alguns hospitais também ficaram sobrecarregados. O temor de que faltassem leitos para aqueles infectados em situação de risco fez com que o governo tomasse medidas.

A não ser em situações de emergência, proibiu-se a ida a hospitais públicos.

O comércio está completamente parado. Algumas poucas lojas abrem durante o dia, como mecânicas, supermercados, farmácias e lojas de tecnologia. Nessa rotina perigosa, celulares se tornaram indispensáveis.

Apesar das dificuldades, bancas de jornais e revistas seguem abertas todos os dias. Lê-se muito naquele país, onde o principal periódico, La Repubblica, possui uma tiragem de nada menos do que 300 mil exemplares diários.

No sábado, 14, o La Reppublica estampou em sua manchete: “Irmãos da Itália em nossas ruas desertas”.

Na televisão, jornalistas apresentam programas a uma distância de pelo menos um metro um do outro também.

Muitas emissoras estão em campanha para valorizar a estadia em casa, ao lado da família, e o estímulo à leitura.

A economia segue fraca. A previsão para o crescimento deste ano, diz Karla, “é zero”. A bolsa de Milão, uma das mais importantes cidades do país, despencou na semana passada.

A Itália segue aguardando um decreto econômico do governo. A expectativa é que haja ajuda de custo a trabalhadores autônomos. Não há previsão para que o estado de emergência acabe.

Enfermeiros e médicos recém-formados apresentaram seus trabalhos finais, equivalentes aos TCCs do Brasil, via internet. Aprovados, já passam a ser chamados para suprir a demanda nos hospitais.

Enterros com público são proibidos. Há apenas uma benção do padre, que faz algumas orações. Algumas seletas pessoas assistem de longe. 

  • Publicado na edição impressa de 15/03/2020
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Proprietário e Editor do Jornal Debate