Comércio já sentia queda nas vendas antes do fechamento

FALTAM CELULARES NO MERCADO — Agnaldo Altino, da Casa do Celular, sofre também com a alta do dólar

Enquanto a primeira semana de março foi
ótima para lojistas, as seguintes foram desastrosas

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Ver as ruas Euclides da Cunha e Conselheiro Dantas vazias, em Santa Cruz do Rio Pardo, não é uma cena comum. Mas foi esta a situação durante a semana passada inteira, antes de o governador João Doria (PSDB) e o prefeito Otacílio Parras (PSB) decretarem o fechamento total de serviços. Em Santa Cruz, a medida foi mais radical e os estabelecimentos não essenciais deverão permanecer fechados até o dia 26 de abril.

Na última semana antes das medidas drásticas, dentro das lojas localizadas nas principais vias comerciais da cidade não havia quase ninguém. O corredor poderia dar espaço para novas mercadorias, mas comerciantes sequer têm o interesse em aumentar o estoque.

A primeira semana de março, porém, foi atípica. Agnaldo Altino, 21, gerente na Casa do Celular, chegou a vender R$ 8 mil em um só dia. Mas na segunda-feira que sucedeu a divulgação dos casos suspeitos do novo coronavírus em Santa Cruz, o comércio amanheceu vazio. A situação piorou ainda mais nos dias seguintes.

“Posso dizer que as vendas caíram 60%”, estimou Agnaldo na última semana de comércio aberto. “Passamos horas aqui sem receber ninguém”.

As poucas pessoas que iam às lojas naquela semana também estavam apavoradas. Dois clientes do comerciante que trocariam as telas de seus celulares chegaram a pedir para que o produto fosse higienizado com álcool em gel. “Estão com medo”, diz Agnaldo.

Mesmo na última semana antes do fechamento, comércio estava às moscas

A crise do coronavírus também afetou as Bolsas de Valores. No Brasil, os principais índices chegaram a cair 10% em apenas um dia. A consequência é a alta do dólar — que também afeta Santa Cruz.

Muitos produtos comprados por Agnaldo têm de ser pagos com a moeda americana. E peças para os smartphones são, sobretudo, fabricadas na China. Mas a produção foi parcialmente interrompida durante os últimos meses. “Celular está em falta no mercado”, diz o lojista.

O gerente da filial da “J. Mahfuz” em Santa Cruz do Rio Pardo também admitiu queda nas vendas nos últimos dias antes do fechamento determinado por leis. Na quarta-feira, 17, Marcos Aranha, 41, chegou a conversar com representantes de outras filiais da Mahfuz no Brasil. Todos relataram o mesmo desalento.

“Cheguei para trabalhar hoje e praticamente não havia carros nas ruas. O que vi foram vagas”, disse Marcos.

Quando clientes entram na loja, o primeiro assunto é o coronavírus. A orientação da matriz da “J. Mahfuz” é para que não haja pânico. “O surto pegou todo mundo de surpresa. Espero que isso seja temporário”, afirmou Marcos, fazendo coro com todos os comerciantes.

O gerente da J. Mahfuz Marcos Aranha, que viu sobrarem vagas na rua Conselheiro Dantas

Em várias lojas da Conselheiro Dantas, potes com álcool em gel se tornaram obrigatórios nos balcões. O produto continua sendo oferecido aos clientes em estabelecimentos autorizados a permanecerem abertos. Porém, muitas os clientes vezes saem literalmente com as mãos limpas da loja.

Falta do produto

A farmacêutica Waneska Manfrim, que rechaça a hipótese de aumentar o preço do álcool em gel, produto que manipula há décadas

Mas há outro problema. Nem sempre o antisséptico está disponível nas farmácias ou supermercados.

A falta do álcool em gel é confirmada pela empresária Waneska Rodrigues Pegorer Manfrim, que há mais de duas décadas comanda a farmácia de manipulação Natural Farma. “Nunca vi uma procura tão grande pelo álcool em gel”, admitiu.

“A busca pelo produto aumentou nos últimos quatro ou cinco anos. Mas nunca foi tanta”, afirma. Segundo ela, o aumento na demanda se deve ao coronavírus, classificado como pandemia pela Organização Mundial da Saúde, a OMS.

Waneska manipula o produto antisséptico e, por isso, ele nem sempre está disponível para pronta entrega, já que a farmácia continua com as portas abertas. As encomendas, porém, também estão atropeladas. “São muitas. Às vezes faltam até embalagens”. Os potes são fabricados com polímero, material que as indústrias importam.

Entre aqueles que encomendam estão jovens, adultos e idosos. Empresas também entram na disputa para conseguir o produto.

Uma das soluções oferecidas pela farmacêutica é a substituição do álcool em gel pelo líquido. Mas ela alerta: somente para a limpeza de objetos. Pelas propriedades químicas, o álcool líquido pode ressecar a pele ou causar feridas.

“O álcool 70 [nome comercial do álcool 70º INPM] serve muito bem para esterilizar teclados, joias, mesas e vários outros móveis ou objetos”, explica.

Waneska também criticou as tentativas de se aumentar o preço do produto nas prateleiras. “O preço da matéria-prima aumentou um pouco, é verdade. Mas isso não nos obriga a encarecer o produto final”, diz. Segundo Waneska, o álcool em gel, ao menos em sua farmácia, é vendido pelo mesmo preço há cerca de um ano.

O gerente do açougue Boi Bom, Daniel Luiz Camilotti, que nota um aumento nas entregas a domicílio

Açougues

Vários açougues de Santa Cruz do Rio Pardo estão experimentando um aumento significativo no número de entregas em domicílio no decorrer da semana passada. Os estabelecimentos estão autorizados a continuar atendendo ao publico.

Gerente no açougue “Boi Bom”, Daniel Luiz Camilotti, 41, afirma que clientes que antes tinham o costume de comprar carne presencialmente passaram a fazer os pedidos por telefone.

A diminuição no número de clientes, para ele, seguiu a queda do movimento no comércio. O açougue já fazia o serviço de entrega a domicílio, mas os pedidos não eram tantos.

Ele não descarta a aquisição de outros veículos para suprir a demanda se houver necessidade. O “Boi Bom” possui três estabelecimentos em Santa Cruz. Cada um possui seu veículo.

Internamente, o açougue também tem tomado precauções para evitar o contágio do novo coronavírus. “O balcão é limpo a todo momento com álcool. No caixa, há álcool em gel para funcionários e clientes”, afirmou. 

  • Publicado na edição impressa de 22/03/2020
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Proprietário e Editor do Jornal Debate