Quem não tem casa para se isolar

Eliseu Aparecido disse que ouviu "alguma coisa" sobre coronavírus

Moradores de rua seguem expostos
a céu aberto e alguns deles
sequer sabem o que é coronavírus

João Plácido disse que nunca ouviu falar em coronavírus

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

João Antônio Plácido, 37, praticamente nasceu nas ruas, para onde foi aos sete anos, quando perdeu a mãe. Natural de Cambará-SP, passou por Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e vários outros estados do País. Está há algum tempo em Santa Cruz do Rio Pardo, cidade que define como “a mais acolhedora de todas em que esteve”.

Dotado de uma imunidade que só quem vive na rua possui, Plácido nunca pegou uma gripe desde que se tornou andarilho. Não sabe ler ou escrever. Se atualiza, portanto, ouvindo notícias. Mas também não tem rádio. De vez em quando, quando pode ir a bares para comprar algumas cervejas, ouve o que diz a televisão, que nem sempre está ligada nos noticiários.

Questionado sobre se tem alguma ideia do que está acontecendo no mundo, responde que ouviu dizer sobre uma certa gripe que está assombrando os países. “Conhece o termo coronavírus?”, pergunta o repórter. Plácido nunca ouvira falar.

Ele vive há alguns anos nos entornos do Ginásio de Esportes de Santa Cruz. Pede dinheiro nos semáforos com Eliseu Aparecido Nascimento, com quem divide os poucos recursos que consegue.

Os dois notaram, na última semana, uma queda brusca no movimento. Não sabiam bem o motivo do declínio e receberam a explicação. Foram alertados sobre o risco, mas não se preocuparam.

Eliseu Aparecido Nascimento (à esquerda) e João Antônio Plácido (à direita) não conheciam o coronavírus e sabiam apenas ‘sobre uma gripe’

A mãe de Eliseu mora na Vila 80, em Santa Cruz do Rio Pardo, e recebe o filho algumas vezes no mês. “Ela me prepara um xarope caseiro. Sabe? Aqueles fortes. Isso me previne de qualquer coisa”, diz. Segundo o morador de rua, está na rua porque quer. “Gosto das amizades”.

Plácido, por sua vez, aposta na Bíblia. Se diz crente em Deus e afirma que “há coisa muito pior para vir”. “Tudo está nas escrituras. Deus não falha”, aponta. Nenhum deles vai tomar medidas preventivas contra o coronavírus porque sequer têm a oportunidade de se precaver dos riscos.

Eliseu também não conhece o termo coronavírus. Ouviu no rádio uma ou outra palavra sobre a pandemia. Estudou até a quarta série e é alfabetizado. “Só não sou bom de matemática”, brinca.

Ele acompanha Plácido nos piores e melhores momentos. Passam frio quando chega o inverno e dizem que esta é a época mais difícil do ano. “Ainda bem que algumas pessoas ajudam”, diz Eliseu. 

  • Publicado na edição impressa de 22/03/2020
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