Depois de polêmica, prefeito cede e assina contrato do lixo

Depois de muitas reclamações, Codesan fez a coleta no segundo dia com carretinha atrás para recolher sacos que caíram do caminhão; Polícia Militar ignorou trabalhador na caçamba dos caminhões

Decisão veio após dias relutando
para homologar licitação de limpeza
urbana alegando revisão de documentos

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Fim da novela. O prefeito Otacílio Parras enfim resolveu ceder e, na manhã de quarta-feira, 13, a administração assinou o contrato com a empresa “Ártico”, que venceu o pregão de limpeza pública no município duas semanas atrás por um valor de quase R$ 3 milhões a menos se comparado ao que era pago à MRover, a empreiteira que até este ano realizou o serviço em Santa Cruz do Rio Pardo.

A “Artico” venceu os quatro lotes da licitação — coleta de lixo, varrição urbana, coleta de massa verde e de recicláveis. Otacílio relutou em permitir que a empresa iniciasse o serviço e determinou a revisão de todo o processo licitatório.

A mando de Otacílio, a revisão passou por dois procuradores. Enquanto a licitação não foi homologada, quem coletou o lixo em Santa Cruz foi a autarquia Codesan — que não tem equipamentos e nem pessoal para tanto.

Caminhões da Codesan não eram próprios para a coleta de lixo
Sacos ficaram pelo chão até na estrada em direção ao antigo aterro

O resultado, conforme adiantado pelo DEBATE na semana passada, foi caótico. A coleta foi feita em caminhões comuns, inapropriados para o serviço, e sacos de lixo caíram da caçamba. Funcionários dos setores de jardinagem e construção civil tiveram de se tornar coletores da noite para o dia.

O prefeito insistiu no discurso de que documentos da “Ártico” foram entregues com atraso. Na verdade, a empreiteira tinha até a sexta-feira, 8, para enviá-los, e tudo ocorreu dentro do prazo segundo apurou o DEBATE.

Otacílio também deixou claro que os documentos cuja análise estava pendente diziam respeito à varrição urbana. Apesar disso, não liberou a coleta de lixo para a empreiteira de Bauru.

Em 2014, quando a MRover assumiu em Santa Cruz, não houve o pedido de revisão completa e a empreiteira rapidamente assumiu os serviços. A única vez em que o governo adotou “diligências” em pregões foi no caso das rádios, quando tentou proteger a Difusora, emissora aliada de Otacílio.

Várias ruas de Santa Cruz do Rio Pardo ficaram com lixo espalhado

Na segunda-feira, 11, a reportagem flagrou funcionários da Codesan sem máscaras ou equipamentos de segurança em cima da caçamba de caminhões. Estavam rodeados de lixo.

Embora a prefeitura tenha cotado preços para um contrato emergencial por 45 dias, não formalizou o documento porque o valor, segundo Otacílio, estaria superfaturado. Na verdade, o contrato emergencial possui valores mais caros porque a empresa não tem garantia de estabilidade. No caso de Santa Cruz, a “Ártico” também venceu o emergencial.

Caminhão da Codesan abarrotado com lixo

Apesar das fotografias mostrando funcionários da Codesan se equilibrando em cima dos caminhões, adiantadas pelo DEBATE em seu site, o promotor Marcelo Saliba disse que fotos não serviam. Ele é o responsável pelo setor de Saúde pública do município.

Saliba afirmou que já havia solicitado esclarecimentos por parte da prefeitura e da Codesan sobre a falta de equipamentos ou pessoal. Ao DEBATE, há duas semanas, disse que “se a Codesan não tiver equipamento, não pode fazer o serviço”. A autarquia, no entanto, realizou a coleta sem quaisquer impedimentos.

A Polícia Militar também admitiu que a autarquia infringiu leis de trânsito, mas reiterou que não multou os veículos porque “todos fazem o que fazem em busca do interesse social e do bem comum”.

  • Publicado na edição impressa de 17/05/2020
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