Joel confirma versão sobre orientação dos procuradores, mas pode apoiar projeto

COCHICHO — Marco ‘Cantor’ ouve sussurro de Joel durante sessão legislativa (Foto: André Fleury)

Ele disse que a informação
do vereador Marco ‘Cantor’;
procuradores e Otacílio negam

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O vereador Joel de Araújo (Republicanos), um dos signatários do projeto que tentou anistiar as dívidas de parlamentares “faltosos”, disse ter sido “engabelado” pela bancada governista. Na quarta-feira, 13, dois dias após a retirada do chamado “Projeto da Vergonha”, ele disse ao DEBATE que se sentia “enganado” pelo vereador Marco “Cantor” Valantieri (PL), que o procurou, junto com Lourival Heitor (SD), para pedir que assinasse a proposta. “Ele me disse que os procuradores da prefeitura tinham dado um parecer totalmente contra a lei atual e que o novo projeto poderia tranquilamente ser colocado, inclusive com efeito retroativo”, afirmou.

Joel disse que alertou Marco de que a ideia poderia ser “uma arapuca”. “Ele me disse que poderia ir tranquilo e me engabelaram. Eu assinei e só depois vi que era tudo mentira, que não tem respaldo algum”, afirmou. “Venderam para mim algo que não é verdadeiro e caí na besteira de assinar”.

A conversa inicial com Marco Cantor foi por telefone. Em seguida, Marco foi até Joel, no bairro Morada da Ponte Nova, colher a assinatura. “O Marco disse que todos os procuradores da prefeitura têm experiência e garantiram que o projeto era uma causa ganha”, disse. Segundo ele, “com certeza” o prefeito Otacílio Parras participou da articulação a favor da anistia.

Joel de Araújo disse que Marco “Cantor” também citou o nome do advogado Marcelo Picinin, que estaria por trás da articulação da anistia dos “gazeteiros”. Picinin, ex-assessor do atual governo, é advogado particular do prefeito e já assinou um parecer em defesa da anistia em fevereiro deste ano.

No dia seguinte à sessão da Câmara, o jornal publicou em seu site a informação de que os procuradores da prefeitura teriam analisado o “Projeto da Vergonha”. Na terça-feira, foi a vez do prefeito Otacílio, em pronunciamento na Difusora, negar o fato. “Isto é uma palhaçada de um órgão de imprensa. Este órgão de imprensa costuma inventar as coisas”, atacou.

Joel denunciou “Cantor” e criticou projeto. ,mas agora pode votar a favor

No final da tarde, o DEBATE divulgou na internet as revelações de Joel de Araújo em áudio. O vereador também confirmou o fato em entrevista à rádio 104. Além disso, outros vereadores também informaram que Marco “Cantor” fez o mesmo comentário sobre os procuradores na reunião interna da noite de segunda-feira, minutos antes do início da sessão.

Na quinta-feira, 14, “Cantor” foi à mesma Difusora e negou que tivesse falado a Joel sobre qualquer consulta dos procuradores. Ele contou que, no dia anterior, o prefeito Otacílio Parras telefonou a Joel para saber qual o vereador que afirmou ter ocorrido uma interferência dos procuradores no projeto da anistia. Segundo Marco, Joel negou tudo. Em seguida, “Cantor” sugeriu, inclusive, que as declarações gravadas de Joel ao DEBATE poderiam ser fruto de uma “montagem” do jornal. “Ou então foi um mal-entendido”, amenizou.

Joel foi à Difusora na sexta, 15, e confirmou o que disse ao DEBATE. Segundo ele, o vereador “Cantor” realmente afirmou que os procuradores teriam analisado o projeto e dado o aval jurídico. Em relação ao telefonema do prefeito, Joel admitiu que “errou” ao negar nomes. No entanto, disse que mudou a versão para “preservar” os colegas, já que Otacílio ameaçou “tomar providências”.

No final, surpreendeu. Ele tinha no bolso uma cópia do projeto de 2016, mas não entendeu o texto quando Roger Garcia fez a leitura e alertou que não havia nada sobre descontos. Joel ficou em dúvida e, perguntado, afirmou que, agora, poderá votar a favor de uma anistia aos vereadores “faltosos”.


Nome do prefeito está na primeira versão do projeto, que depois foi modificado

Projeto original tinha o nome
do prefeito e texto foi mudado

Texto foi mudado em cima
da hora para trocar o nome
do prefeito pelo da Câmara

O projeto apresentado pelos oito vereadores que defendem a anistia total dos pagamentos irregulares aos “faltosos” teve duas versões. Na primeira, cuja cópia o jornal teve acesso, o nome que aparece em primeiro plano é o do prefeito Otacílio Parras (PSB). Para setores da oposição, é mais uma prova de que o Executivo interferiu no processo legislativo e orientou os governistas para apresentar o “Projeto da Vergonha”. Nenhum dos vereadores que assinaram a proposta contou quem elaborou o texto.
O vereador Marco “Cantor” Valantieri (PL) contou na rádio Difusora, quando tentou desmentir Joel de Araújo (Republicanos) sobre a polêmica orientação dos procuradores municipais, que a primeira versão “continha um erro” e, por isso, foi alterada. “E o Joel assinou as duas”, afirmou.
O “erro” era justamente o nome do prefeito no projeto. A segunda versão retirou Otacílio e foi reeditada com o nome da Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo. As duas versões foram assinadas pelos oito vereadores.
Na verdade, não é um erro. Há uma polêmica sobre qual o nome que deve constar no projeto. A lei complementar 583, aprovada em 2016 e que determina o desconto salarial aos vereadores que não comparecerem a alguma sessão, traz o nome de Otacílio Parras em seu cabeçalho. Em outra lei no mesmo sentido, aprovada em 2012 e que também estabeleceu descontos, aparece o nome do prefeito em exercício na época, Nelson Guimarães.
A polêmica sobre a participação dos procuradores na articulação da anistia aos “faltosos” provocou uma nota do setor jurídico. Assinada pelos procuradores Luciana Junqueira, Rodolfo Camilo, Antonio Manfrin Júnior e Rogério Scucuglia, a nota nega que o setor tenha feito qualquer tipo de orientação e consultoria a vereadores ou ao prefeito sobre assuntos particulares ou da Câmara.

  • Publicado na edição impressa de 17/05/2020
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Proprietário e Editor do Jornal Debate