Esposa de ex-gerente da ‘MRover’ foi sócia de empresa ligada a concorrente

Moisés Rovere, dono da MRover, durante licitação na prefeitura de Santa Cruz

Hoje, empresa é de esposa de outro
empreiteiro ligado ao grupo; fato reforça
possibilidade de formação de cartel

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A ficha cadastral da empresa “Mega Construções e Serviços de Limpeza”, com sede em Andradina-SP, mostra que Renata Alessandra Neiris Nascimento foi sócia da empresa durante três meses no ano de 2015. A cidade também é sede da MRover.

Renata Neiris Nascimento é esposa de André Luís Silva Nascimento, que foi gerente da “MRover”, empreiteira que durante seis anos prestou serviço de limpeza pública em Santa Cruz do Rio Pardo.

Hoje, a empresa ‘Mega Construções’ é de propriedade de Renata Miranda Nascimento, esposa de Adriano Silva Nascimento — dono da “AS Nascimento Serviços Ambientais”, que fica em Lençóis Paulista. Adriano também é irmão de André Luís, o gerente da MRover.

A “AS Nascimento Ambiental” foi uma das empresas que concorreram à licitação para os serviços de coleta do lixo e limpeza pública em Santa Cruz há duas semanas. A “MRover”, cujo dono é o empreiteiro Moisés Rovere, participou do mesmo pregão. Moisés, Adriano e André possuem ligações pessoais, embora, em tese, suas empresas disputem certames em várias prefeituras.

O documento que expõe o nome de Renata como sócia da “Mega Construções” é da Junta Comercial de São Paulo, a Jucesp.

Nas redes sociais, Renata costuma compartilhar vídeos do prefeito Otacílio Parras (PSB). Quem curtiu pelo menos uma das publicações é seu marido, André Silva Nascimento. Sob a condição de anonimato, um ex-coletor da MRover disse ao DEBATE que “André puxava bastante o saco de Otacílio”.

A reportagem entrou em contato com as empresas MRover e “AS Nascimento” e pediu esclarecimentos a respeito do caso envolvendo André Nascimento e sua mulher, Renata Neiris. Até a conclusão desta edição, porém, não houve resposta.

O fato é mais um indício que aponta para a possibilidade de formação de cartel entre as empresas “AS Nascimento”, “MRover”, “Mega Construções” e “Jimmy Urbanismo”, caso revelado pelo DEBATE duas semanas atrás.

A “Jimmy Urbanismo” tem sede em Santa Cruz e pertence a Eliel Siqueira Rovere, filho de Moisés Rovere.

Um ex-funcionário da área administrativa da MRover disse ao jornal que “eles trabalham com vários nomes”. A mulher de Moisés Rovere, por exemplo, já representou a “AS Nascimento” em licitações.

O vereador Marco ‘Cantor’ (à esq.) entrega homenagem ao ex-gerente da MRover, André Luís Nascimento, na Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo

Até o momento, o prefeito Otacílio Parras (PSB) não explicou o motivo de pagar o dobro do preço pela coleta de lixo e nem deu qualquer declaração sobre a possibilidade de a MRover, empresa que prestou serviços durante dois de seus mandatos, estar envolvida em um cartel. Na semana retrasada, o DEBATE enviou a ele sete questionamentos a respeito do caso. Ele só respondeu a um deles.

O empreiteiro Moisés Rovere já presenteou Otacílio com um faqueiro dentro da prefeitura no final de 2015. A relação entre Otacílio e a empresa de limpeza pública também foi marcada por altos e baixos. O prefeito já chegou a ameaçar romper o contrato com a MRover em outros tempos.

O clima foi amenizado quando, segundo funcionários, o empreiteiro Adriano Nascimento veio a Santa Cruz para conversar com Parras. O prefeito nega que a conversa tenha existido, mas não respondeu à pergunta da reportagem sobre se conhece ou não Adriano.


Licitação do lixo, vencida pela Ártico com um preço R$ 3 milhões menor do que Otacílio pagava à MRover

Licitação deveria ter
ocorrido no ano passado

Contrato foi mantido porque “era
vantajoso” segundo a prefeitura

De acordo com a lei, a licitação de limpeza pública de Santa Cruz do Rio Pardo deveria ter acontecido no ano passado. O período máximo para que um contrato seja prorrogado são cinco anos. Há casos excepcionais, como quando há vantagem financeira ao município.

Foi justamente este o argumento da prefeitura ao DEBATE quando questionada sobre o motivo pelo qual não houve pregão no ano passado. O contrato com a MRover foi prorrogado excepcionalmente por mais 12 meses e terminou só no início deste mês.

No termo de prorrogação contratual, a prefeitura informou que, após cotação de preços do mercado, os preços pagos à MRover eram mais vantajosos ao município. Cinco empreiteiras participaram da cotação.

A administração não informou, no entanto, quem foi o responsável pela escolha das empresas para o levantamento de valores. Há duas semanas, o DEBATE revelou que a própria MRover, em outras ocasiões, já levou cotação de empresas à prefeitura, conforme apontou um depoimento de um ex-funcionário.

No ano passado, entretanto, a própria MRover participou da cotação e ofereceu fazer o serviço por um preço muito maior — R$ 7.501.432. Uma outra empresa, Prorental, ofereceu o serviço por R$ 4,5 milhões. O desfecho foi a prorrogação do contrato com a empreiteira de Moisés Rovere por R$ 4,4 milhões.

A prefeitura também não forneceu ao DEBATE os documentos em que constam os valores e afirmou que eles devem ser solicitados mediante protocolo. A retirada dos documentos, diz a administração, teria de ser paga pelo jornal.

O fato sobre ser ou não vantajoso ao município é questionável, já que a empresa “Ártico” venceu o pregão neste ano por uma diferença de quase R$ 3 milhões a menos que o preço que era pago à MRover.

Além disso, toda licitação é precedida de um edital, documento no qual estão estabelecidos os preços que servem como base para a prestação dos serviços.

No edital deste ano, os “preços-base” foram bem inferiores àqueles que a própria prefeitura considerou como vantajosos para manter o contrato com a MRover.

  • Publicado na edição impressa de 17/05/2020
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