Ideia de ‘Cantor’ foi ‘barganhar’ projeto

TEMOR — ‘Cantor’ defende anistia e diz não ter medo de “cara feia’

Vereador ficou isolado no grupo governista; ideia era pedir apoio à anistia em troca da retirada da proposta de reduzir salários

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Sem dar explicações, o vereador Marco “Cantor” Valantieri (PL) retirou o “Projeto da Vergonha”, como ficou conhecida a proposta de anistiar os parlamentares que podem ter valores a devolver por terem recebido salários integrais sem o desconto das respectivas faltas em sessões. O projeto estabelecia um efeito retroativo de 11 anos, desde 2009, mas foi retirada no início da sessão da Câmara de terça-feira, 26.

Foi a terceira retirada de uma proposta para anistiar os “faltosos” desde que a própria Câmara apurou a irregularidade que atinge pelo menos 22 parlamentares. Em fevereiro, um projeto semelhante foi retirado pelo líder do prefeito, Lourival Heitor (SD), depois de uma enxurrada de críticas de moradores nas redes sociais.

Desta vez, o texto foi idealizado pelo vereador Marco “Cantor” e apresentado na pauta da primeira sessão de maio. No entanto, após uma longa reunião entre as bancadas, que provocou o atraso no início da sessão, o projeto foi retirado. Em seguida, Marco “Cantor” foi à rádio Difusora e disse que iria reapresentar o projeto que seria, segundo ele, apenas uma “regulamentação”.

Afirmou que não tinha “medo de cara feia” e comunicou que iria reapresentar a proposta na sessão seguinte, realizada na última terça-feira. Mais uma vez, o projeto foi retirado sem qualquer explicação.

O Ministério Público já investiga o caso dos “faltosos” através de um inquérito instaurado pela promotora Paula Bond Peixoto a pedido do presidente da Câmara, Paulo Pinhata (PTB). Ele encaminhou ao MP cópia de um relatório do procurador João Luiz de Almeida Júnior, com detalhes sobre as irregularidades e a relação dos vereadores “gazeteiros”.

Na sessão de terça-feira, 26, o projeto estava na pauta para votação. No meio da reunião, porém, Marco “Cantor” apresentou um requerimento solicitando a sua retirada. Todos concordaram e o presidente Paulo Pinhata perguntou à bancada governista se o projeto seria arquivado. “Pela ordem, presidente. É retirada de pauta”, corrigiu Marco “Cantor”, sugerindo que a proposta ainda pode voltar ao plenário.

SEM APOIO — Único sem falta, Cristiano Miranda não apoiou o projeto (Foto: Sérgio Fleury)

Sem o arquivamento definitivo, o projeto pode ser reapresentado a qualquer momento. A única exigência do Regimento Interno da Câmara é que ele tenha no mínimo a maioria absoluta dos vereadores — sete votos.

Motivos

A reportagem apurou que o projeto, embora com sete assinaturas, não teria o apoio unânime da bancada governista. Cristiano de Miranda (PSB), por exemplo, disse que só assinou para autorizar o projeto a entrar na pauta, pois precisava das sete assinaturas. No entanto, afirmou que não votaria a favor. Cristiano é o único vereador da atual legislatura que não possui nenhuma falta em todas as sessões.

O vereador João Marcelo Santos (PSD), que também assinou o projeto, admitiu que tinha dúvidas. Na sessão do dia 11 de maio, quando a proposta foi apresentada pela primeira vez, João Marcelo anunciou que votaria contra e provocou sua retirada. Ontem, ele admitiu que somente iria decidir seu voto se o projeto realmente fosse à votação.

O fato é que Marco “Cantor” Valantieri ficou isolado até na bancada governista. O motivo é que agora, sem consultar os colegas, ele passou a defender a redução dos salários dos vereadores, sem nunca ter feito qualquer movimento neste sentido em seus dois mandatos como vereador. Ao contrário, “Cantor” votou contra duas propostas apresentadas na legislatura anterior, de autoria do ex-vereador Luiz Carlos “Psiu” Novaes Marques. Uma delas estipulava o salário mínimo como subsídio para vereador.

Claro que o fato do vereador aparecer como “novo moralista” constrangeu até seus colegas de bancada

Na verdade, a intenção de “Cantor” era “barganhar” a aprovação do “Projeto da Vergonha” com seu requerimento defendendo salários reduzidos para vereadores. Este fato, segundo alguns vereadores consultados, ficou estampado em conversas de Valantieri nos bastidores. Ele concordou em retirar o “Projeto da Vergonha”, mas, sem diálogo com a própria bancada, insistiu em manter o requerimento pela redução dos salários.

Para alguns, a questão salarial soou como uma espécie de “vingança” contra aqueles que não aceitaram apoiar o “Projeto da Vingança”. Marco só não esperava que a ideia tomasse vulto entre quase todos os vereadores, a ponto do presidente Paulo Pinhata (PTB) sugerir a redução imediata dos salários.

Além disso, a oposição também passou a analisar o valor dos salários do prefeito e secretários, que também podem sofrer reduções para a próxima legislatura.
De qualquer forma, a Câmara deverá discutir e fixar os salários de prefeito, vice e vereadores ainda neste ano, obrigatoriamente antes das eleições de outubro. 

  • Publicada na edição impressa de 31 de maio de 2020