Áudio suspeito paralisa a CPI que investigaria Lucas Pocay

SEMPRE JUNTOS — O funcionário da autarquia SAE Márcio Roberto Fermiano (à esquerda) ao lado do prefeito Lucas Pocay

Gravação inaudível e não periciada foi protocolada na Câmara por um funcionário gratificado pela gestão de Lucas Pocay

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Um áudio inaudível e sem sequer ter passado por perícia foi responsável por suspender a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que tramitava na Câmara de Ourinhos para apurar a denúncia do empresário Ricardo Xavier Simões, feita no mês passado.

Ricardo acusa o secretário de Finanças Osvaldino Araújo e o ex-secretário de Assuntos Jurídicos Pedro Vinha Júnior de terem sido interlocutores de um pedido de propina que envolveria doação de terrenos como moeda de troca para quitar débitos pendentes na prefeitura. Ele fez a denúncia na Polícia Federal, através de depoimento espontâneo. A informação foi publicada pelo DEBATE e provocou a CPI.

Os terrenos seriam doados não só a eles, mas também ao prefeito Lucas Pocay (PSD) e seu pai, o ex-deputado estadual Claury Alves da Silva.

O áudio foi publicado por um site governista de Ourinhos que, nos primeiros três meses de 2020, recebeu R$ 25 mil em publicidade, segundo levantamento do jornal Negocião.

Com chiados e barulho ao redor, o site diz que o áudio comprovaria uma eventual combinação entre Ricardo Simões e o vereador da oposição Edvaldo Lúcio Abel, o “Vadinho”, para tentar derrubar o prefeito Lucas Pocay. Na realidade, não é possível entender uma palavra sequer a partir do áudio.

A partir desta gravação, o funcionário da Superintendência de Água e Esgoto de Ourinhos Márcio Roberto Fermiano — que tem função gratificada pela atual administração na autarquia — elaborou uma denúncia ao presidente da Câmara Alexandre Florêncio Dias (PSD) pedindo a suspensão da CPI. Além disso, ele solicitou a cassação do vereador Vadinho.

Alexandre colocou em votação o requerimento e, por 9 votos a 4, a CPI foi suspensa. “Vadinho”, porém permanece no cargo.
Para o vereador, a decisão que suspendeu a CPI foi “absurda”. Os demais vereadores da oposição têm a mesma opinião.

Na quarta-feira, 10, os vereadores “Vadinho”, Cícero “Investigador” e Flávio Luiz Ambrozim impetraram um mandado de segurança na Justiça para que a decisão de suspender a CPI seja suspensa. No pedido, os vereadores lembram, por exemplo, que o presidente da Câmara de Ourinhos é aliado político de Pocay.

Expõem também a proximidade de Márcio Roberto Fermiano — que recebeu gratificação de gerente na SAE — como apoiador assíduo do prefeito.

Nas redes sociais, Márcio Fermiano publica várias fotos com o prefeito Lucas Pocay. Além disso, em algumas ocasiões, publica foto do próprio Pocay com recados gentis ao prefeito.

“Não restam dúvidas que a representação fora engendrada e arquitetada unicamente para suspender os trabalhos da CPI”, argumenta a ação judicial que tenta desbloquear a CPI.

Na denúncia do servidor, também consta um trecho de uma entrevista que o empresário Ricardo Xavier Simões concedeu ao Negocião no domingo, 7. Questionado sobre se ele teria sido extorquido por Pedro Vinha Júnior, Ricardo nega. Entretanto, o que ele diz que é a tentativa de extorsão teria sido tratada com seu antigo sócio na Delfim Verde, Mário Matheus. O vídeo, porém, foi apresentado pelos vereadores governistas com vários cortes.

Desde que a denúncia contra os envolvidos foi tornada pública — através de reportagem do DEBATE, já que o caso corre sob sigilo —, o cenário político ourinhense sofre perturbações.

Há uma forte tentativa por parte de apoiadores de Pocay de desmoralizar a imagem do empresário Ricardo Simões — responsável pela modernização de Ourinhos — para abafar a gravidade das denúncias.

O jornal também foi envolvido na história pelo site governista “Repórter Na Rua” de Ourinhos, cujo registro de empresa diz que é uma empresa de fotografia. Segundo um texto publicado no site, os documentos da Polícia Federal teriam sido vazados ao jornal por um assessor do vereador Vadinho. O fato é mentiroso e o diretor do DEBATE apresentou queixa na polícia contra o site. No requerimento, foi anexado um áudio de Lucas Pocay conversando com um jornalista do jornal, onde diz que ele possui um áudio que seria entregue diretamente à polícia. Dias depois, um áudio foi publicado no site governista, sugerindo que póde ser entregue por Pocay. O jornal pede uma investigação.

 

  • Publicada na edição impressa de 14 de junho de 2020