Otacílio diz que jornal mentiu, ameaça processar e recua após áudio revelado

O prefeito Otacílio Parras (PSB) no gabinete (Foto: Sérgio Fleury)

Em entrevistas, prefeito chamou Ricardo Salles de ‘bandido’, ofendeu jornalista e deu versão controversa sobre contrato superfaturado e rejeitado pelo Tribunal de Contas

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O prefeito Otacílio Parras disse em pronunciamento à rádio Difusora na segunda-feira, 8, que o DEBATE teria mentido ao anunciar que ele sabia do ‘cartel do lixo’. No mesmo dia, em transmissão ao vivo nas redes sociais, o jornal divulgou o áudio em que o próprio prefeito admite ter conhecimento das várias empresas da MRover.

Antes, muito irritado, Otacílio disse ainda que o repórter que escreveu a matéria estaria “contaminado”. Afirmou também que “não via outra alternativa para o jornal” a não ser processá-lo.

Enquanto o prefeito se pronunciava, o DEBATE entrou em contato com a rádio e disse que não se tratava de mentira, pois poderia provar aquilo que escreveu. Neste momento, Otacílio afirmou que “não tinha chamado ninguém de mentiroso”.

O prefeito aproveitou o espaço para criticar o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, responsável pela interdição do aterro sanitário de Santa Cruz do Rio Pardo em 2017. “É um bandido”, reclamou.

Na terça-feira, 9, em entrevista à rádio 104 FM, logo após a divulgação do áudio pelo jornal, Parras mudou de opinião e alegou que estava “com raiva” no dia anterior e que teria desistido de mover uma ação judicial contra o DEBATE.

A nova versão de Otacílio apresenta várias contradições. Na segunda-feira, em pronunciamento na Difusora, o prefeito afirmou que “se a empresa contratou outra por um valor mais barato, está errado”. Prosseguiu afirmando que “isto sim tem de ser investigado”.

Não foi o que repetiu na 104 FM na terça-feira. Segundo o próprio prefeito, qualquer empresa que ganhasse o contrato teria de subcontratar a MRover. “Até porque o lixo está dentro do caminhão da MRover”, disse. O contrato, porém, não permitia subcontratação.

Otacílio, além disso, negou ter conhecimento da ligação entre a MRover e a empresa “Maria Aparecida de Souza Nossa”. No entanto, o próprio prefeito, em 2017, afirmou que a empresa pertencia à MRover. Isto está claro no áudio divulgado pelo jornal.

Parras também revelou que a própria MRover chegou a participar da cotação de preços, mas que este documento não foi encaminhado ao Tribunal de Contas “por um erro político” do secretário Luciano Massoca (Meio Ambiente). O valor da MRover, segundo disse Otacílio, foi de R$ 5,90. “Deu um preço alto para não pegar, com certeza”, afirmou. Posteriormente, porém, a mesma empresa realizou o mesmo serviço por R$ 3 através de outra pertencente ao grupo.

O prefeito admitiu, aliás, que “em toda licitação há cartel”. Sugeriu, inclusive, já ter visto a formação de alguns em frente à prefeitura. “Às vezes, forma na hora”, afirmou. Não disse, no entanto, se já denunciou algum deles. “Não é da alçada do prefeito”, alegou.


Mauro Assis chama jornal
de lixo e deleta publicação

O médico Mauro Assis, filho do prefeito Otacílio Parras, chamou o jornal de “lixo” e o classificou como “comitê do ódio” em publicação no facebook na semana passada, após o DEBATE ter revelado que o prefeito sabia das ligações da MRover com outras empresas, o chamado “cartel do lixo”. Horas depois, Mauro apagou das redes sociais a publicação.

O médico comparou o DEBATE ao “gabinete do ódio”, assunto que vem sendo discutido no âmbito nacional da política. “Ano eleitoral. Começa a baixaria, perseguição e fake news. O jornal e comitê do ódio é um lixo”, escreveu. 

Ouça abaixo o áudio de Otacílio em 2017, quando
o prefeito contratou o transporte do lixo até Piratininga:

 

  • Publicada na edição impressa de 14 de junho de 2020