Aos 83 anos, morre Jorge Cassiolato

LEMBRANÇAS — Nos tempos das oficinas, Cassiolato está no centro

O mecânico de carros importados em Santa Cruz que se tornou intelectual lutava contra um câncer há anos

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Debilitado por um tratamento contra o câncer, mas com a mesma lucidez que encantava quem o conhecia, Jorge Cassiolato morreu na madrugada de ontem em Santa Cruz do Rio Pardo. Crítico de Bolsonaro e Lula, Jorge leu muito durante toda a vida e era comum discutir sobre qualquer assunto. Porém, entendia a política — brasileira e do município — como poucos, o que deu a ele um título popular de “sociólogo”.

Jorge nasceu na zona rural de Santa Cruz, estudou mecânica e se tornou especializado, a partir da década de 1940, em carros importados. Foi uma época, aliás, em que todos os carros nas ruas eram fabricados em outros países. Virou um “craque” nos motores Land Rover, Volkswagen, Volvo e, inclusive, dos tratores Fendt.

No início do ano, em sua última entrevista — concedida ao DEBATE —, Jorge Cassiolato lembrou que nem todos os importados tinham a qualidade desejada. Crítico feroz do chamado “imperialismo” das nações mais poderosas, ele lembra que o Brasil comprou verdadeiras “sucatas” que ficaram em desuso após o fim da Segunda Guerra Mundial.

MECÂNICO — Em janeiro, Jorge mostrou o quadro de ferramentas que guardou, mesmo após se aposentar (Foto: Sérgio Fleury)

O mecânico lembra que conheceu uma destas “sucatas” que andava pelas ruas de Santa Cruz do Rio Pardo. Era um caminhão responsável pela coleta de lixo até o final dos anos 1960, cuja direção ficava no lado direito da cabine. O veículo era inglês e, segundo Jorge, anos depois foi vendido pela prefeitura de Santa Cruz para um ferro velho.

Cassiolato dominava a política como poucos. Entendia os acontecimentos porque sabia quem eram os personagens e como aquilo acontecia. Afinal, acompanhou os desdobramentos da política brasileira e santa-cruzense durante décadas.

Ainda neste ano, o aposentado demonstrava muita preocupação com os rumos do Brasil sob comando de Jair Bolsonaro. “Temos um soldadinho de chumbo no poder, um burrão, com uma família inteira que só faz besteira. Ninguém sabe o que isto vai dar, pois o homem não tem nenhuma qualidade”, disse em entrevista ao jornal.

A política de Santa Cruz do Rio Pardo ele passou a conhecer a partir de 1947, ano em que Lúcio Casanova foi eleito prefeito da cidade pelo grupo do deputado Leônidas Camarinha. Ainda jovem, acompanhava os padres em visitas à zona rural e começou a perceber que eles pediam votos. “Aquilo não era certo. Eles pediam votos até na hora da missa”, lamentava. Jorge costumava dizer que aprendeu a política com a mãe, que também costumava discutir com os “chefões” da cidade.

Jorge com a filha Lisandra

O historiador Celso Prado, que ontem publicou uma homenagem a Jorge Cassiolato nas redes sociais, disse que seu trabalho de pesquisa não iria longe se não tivesse o incentivo e as correções do amigo. “Foi o homem que melhor conheceu a história de Santa Cruz do Rio Pardo”, disse.

O professor Eduardo Pimentel, da escola Oapec, também lembrou a sabedoria de Cassiolato. “Era um verdadeiro professor de História”, disse.

“O Jorge foi um homem iluminado que marcou todos que o conheceram. Para mim, foi o irmão mais velho, o amigo das horas difíceis”, ressaltou o economista Miguel Abeche.

Jorge Cassiolato era viúvo de Cleonice dos Santos Cassiolato, deixando os filhos Vinícius, Lisandra, Magnus e Thiago. Ele foi sepultado ontem no cemitério de Santa Cruz do Rio Pardo. 

 

  • Publicado na edição impressa de 21 de junho de 2020