Para comerciantes, não existe clima para novo fechamento

Presidente da ACE, Arthur isentou empresas do pagamento de mensalidade durante dois meses (Foto: André Fleury)

Seria devastador, alertam lojistas; prefeito Otacílio decide manter decretos municipais e seguir Brasília

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Comerciantes de Santa Cruz do Rio Pardo se viram assustados quando, na tarde de sexta-feira, 19, receberam a notícia de que o governo de São Paulo havia regredido a região de Marília — da qual Santa Cruz faz parte — para a zona vermelha do Plano São Paulo. O regresso impõe medidas restritivas de isolamento e só permite a abertura dos serviços essenciais — tal como ocorria um mês atrás.

Capa do suplemento especial publicado na edição do DEBATE do domingo, 21

Horas depois, no entanto, veio o alívio: o prefeito Otacílio Parras (PSB) decidiu manter apenas os decretos municipais que regulamentam o comércio. Não deve seguir, ao menos neste momento, a norma estadual — e sim a Federal, conforme permite o Supremo Tribunal Federal.

Para todos aqueles ouvidos pelo DEBATE na sexta-feira, 19, não há clima algum para fechar as portas novamente. “Seria devastador”, disseram alguns. A mesma opinião também tem, provavelmente, grande parte dos comerciantes de Santa Cruz do Rio Pardo.

O presidente da Associação Comercial do município, Artur Araújo, garante que os comerciantes estão respeitando as medidas protetivas contra o coronavírus. “Todos exigem o uso de álcool em gel aos clientes”, afirma. O mesmo ocorre com relação às máscaras de segurança.

“O problema está, muitas vezes, nos consumidores. Como o uso de máscaras não era habitual, ainda é comum que alguns tentem entrar nos estabelecimentos sem o equipamento”, diz. “Esqueci a minha” seria uma das principais desculpas.

Outro fator, diz Artur, está no número de clientes. “Vão à loja o pai, mãe, família, tia e madrinha. Todos juntos. Não é possível permitir que toda a família entre”, alerta. Em sua loja — a Casa Araújo —, há limite de clientes que podem entrar ao mesmo tempo: no máximo quatro.

Como presidente da ACE, Araújo ouviu um grande alívio dos comerciantes quando a reabertura foi anunciada, três semanas atrás. “Estavam todos apertados financeiramente”, admite. A Associação Comercial, aliás, isentou os associados do pagamento das mensalidades durante os dois primeiros meses da pandemia.

Já o secretário da Associação Comercial e proprietário da “Regional das Tintas”, José Sanches Marin, 66, não precisou fechar as portas desde o início. Considerado serviço essencial, manteve os protocolos de segurança e as vendas. Mas não esconde a felicidade com a reabertura. “É algo pelo qual todos esperávamos”, comemora.

O secretário da ACE e dono da Regional das Tintas, José Sanches Marin

Sanches diz que a alegria do retorno não é só dos comerciantes, mas também dos consumidores. “Em primeiro lugar, é um sentimento de liberdade. Depois, o atendimento de uma necessidade”, diz. “As pessoas, naturalmente, precisam consumir. E o comércio, sobreviver”.

Ele sentiu queda nas vendas nas primeiras semanas de isolamento. “Foi o susto. Tudo chegou de maneira inesperada”, lembra. Nos meses seguintes, porém, a situação já estava melhor. “Às vezes, a pessoa estava em casa e, por isso mesmo, aproveita para pintar uma parede, por exemplo”.

Na porta de seu estabelecimento há, além do álcool em gel, máscaras descartáveis para clientes que esquecem o equipamento em casa.

Mas o empresário garante que o mundo pós-pandemia será completamente diferente. “As relações humanas vão mudar muito”. Para melhor, sugere. “A crise é de saúde. E as pessoas certamente vão ter mais consciência depois dela”, afirmou.

Guilherme Dias da Silva, 24, é gerente da filial das lojas “ED+” de Santa Cruz do Rio Pardo e detalha as medidas que o estabelecimento adotou: distância mínima de três metros quadrados por cliente.

Antes de entrar, claro, o uso de álcool em gel é obrigatório e fornecido por uma funcionária que se situa logo na entrada do local. Como todas as demais empresas, ninguém passa pela porta sem máscara. Ao lado de fora, a fila de espera também tem de seguir distanciamento.

Guilherme Dias da Silva, da ÉD+, viu as vendas acima do esperado na reabertura

Os protocolos foram adotados em uma reunião quando foi permitida a reabertura do comércio. “Não precisamos sequer de treinamento. Todos entenderam a situação”, afirma. “Temos uma vida fora da loja, uma família, e sabemos que, nestes tempos, é preciso tomar cuidado”, explica.

Não é à toa que todo o ambiente da loja é higienizado diariamente antes do início da rotina. “Esborrifamos álcool nos cabides e prateleiras, por exemplo”, conta. O chão é limpo com água sanitária. Nem mesmo a mercadoria que chega por caminhões escapa do procedimento.

“Quando novas peças chegam, além de serem higienizadas, permanecem nove dias dentro de um cômodo para garantir que não estejam contaminadas”, explica.

Guilherme notou, nas primeiras semanas após a reabertura, um aumento nas vendas. “Imaginamos que seria até pior”, admite. “Não é um mês de dezembro, quando as vendas despontam, mas está ótimo”, afirma. O comerciante chegou, aliás, a contratar uma nova funcionária para a equipe. “Conseguimos nos manter sem demitir ninguém”, diz, aliviado. Ele também não vê clima para um novo fechamento. “Seria devastador”.

O grande varejo também viu as expectativas superadas ao que era esperado após a reabertura. Nas lojas Pernambucanas, a gerente-trainee Tânia Mara de Moura Ivo admite que não esperava passar por um momento como este e se diz preocupada com o desemprego.

Sem vendas, a Pernambucanas não demitiu ninguém — mas teve de suspender contratos de funcionários. Apenas seis permaneceram efetivos durante o período de fechamento e foram alocados no recebimento de faturas.

Com banheiros e provadores interditados para evitar a proliferação da Covid-19, Tânia afirma que ainda há clientes que pedem para usar os locais. “Nós explicamos que não pode. É preciso trancar e lacrar estes espaços. Se deixarmos, eles usam. Jogo de cintura é essencial nestes casos”, diz.

Com as portas abertas — mas respeitando os protocolos de segurança — as vendas, diz a gerente, estão fluindo. “Até mais do que esperávamos”, diz. Ela teme, no entanto, um novo fechamento.

Há 10 anos comandando uma sorveteria familiar, a “Itapolitana”, Samanta Baylão, 29, viu vários de seus planos ruírem quando veio a ordem de fechamento. Precisou dispensar funcionários e notou os sorvetes quase congelando dentro do freezer. Não só pela temperatura, mas também porque cada vez menos clientes abriam o congelador para se servir.

Proprietária da sorveteria Itapolitana, Samanta Baylão tinha planos e precisou cancelá-los em função do novo coronavírus

Agora, como retorno das atividades, o desafio está em alertar a clientela sobre as regras a serem seguidas. “Não permito a entrada de mais do que quatro pessoas”, diz. Segundo ela, também há quem queira entrar sem máscaras. “Não pode”, repete várias vezes ao dia. 

 

  • Publicado na edição impressa de 21 de junho de 2020