Beto Magnani: ‘O Semáforo’

Histórias do Magú

O semáforo

 

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— Chegamos ao instante da história que não é possível mais ficar em cima do muro.

— O que você tá falando?

— Que a partir de agora todos precisam assumir posições. Não tem mais o não sei.

— Sei.

— Não existe não ser. Todos terão que ser.

— Isso é hora de falar uma coisa dessas?

— Não existe mais hora também. Só existe o agora. O presente. O passado e o futuro pertencem ao presente. Só o presente existe. O resto ou já foi ou ainda virá.

— Você tá foda. Para com esse papo. Me deixe de boa.

— O que é ficar de boa?

— Ficar em paz.

— Você só terá paz se tomar atitudes.

— Me deixa.

— Não basta não aceitar, tem que combater o que você não aceita. Você entende?

— Não.

— Quando todos sairmos de nossas de casas, sairemos para a luta contra a individualidade, a desigualdade. Chegou a hora da solidariedade. Da consciência de comunidade prevalecer.

— Sei.

— Distribuir comida, dar esmola para aliviar a consciência pesada de ter casa com piscina enquanto muitos passam necessidade acabou.

— Acho que não hein.

— Acabou sim. Já era a caridade das madames.

— Você tá sendo muito otimista. O que você bebeu?

— Não bebi. Sonhei. Tenho sonhado mais na quarentena. E acreditado mais nos meus sonhos.

— Então acorde. A vida não é sonho. A vida é fato.

— Sim. E são os fatos que estão confirmando meus sonhos. Quando acordo as noticias mostram que estamos finalmente no caminho de um mundo melhor. Não há mais espaço para injustiças, mentiras, abusos, para qualquer ato ou pensamento que não prime pelo justo, pela diversidade, pela tolerância, pelo respeito, pela humanidade.

— Onde você tá vendo tudo isso?

— A história, o conhecimento, a ciência, a arte e tudo mais que converge ao crescimento da humanidade prevalecerá sobre a ignorância, o egoísmo, a individualidade, a desigualdade, a todas as mazelas humanas que causam retrocessos.

— Da um pedaço dessa droga que você tomou. Se não é bebida é alguma outra coisa.

— Acredite. Quem viver verá!

— Adoraria.

— O bem triunfará antes do juízo final!

— Por que você não toma uma água? Tem no porta-luvas.

O semáforo abriu. Eles foram. Eu tinha desistido de atravessar a rua para continuar ouvindo, não resisti. Aguardei novamente a vez do pedestre. Atravessei. Com a esperança renovada. (Magú)

 

  • Publicado na edição impressa de 21 de junho de 2020