Franco Catalano: ‘Distopias – Expresso do Amanhã’

Distopias – Expresso do Amanhã

 

Franco Catalano

CULTURA Dando continuidade ao tema da semana passada, hoje trataremos da recém-lançada — e já celebrada — série americana Snowpiercer, ou Expresso do Amanhã no título abrasileirado. A produção se baseia nos quadrinhos do francês Jacques Lob. Le Transperceneige (“O Perfuraneve”) foi publicado pela primeira vez em 1982, dando origem, além da série da Netflix, ao filme de 2013 do polêmico diretor sul-coreano Bong Joon-ho, vencedor de três Oscar, sendo um deles o de Melhor Filme, fato inédito para um longa de língua não-inglesa.

A série explora um cenário pós-apocalíptico próximo aos dias de hoje, onde quase toda a vida do planeta foi dizimada. Produções com temática relacionada ao apocalipse, aliás, vem crescendo consideravelmente, mas têm sido recorrentes há milhares de anos e em diversas culturas, como a Cristã, a Hindu, a Viking e a Maia, por exemplo. Filmes com previsões do fim do mundo também são recorrentes desde as primeiras décadas do século 20, mas foi nos anos 1970/1980 que tiveram seu “boom”. Planeta dos Macacos e O Exterminador do Futuro são clássicos dessas décadas.

O primeiro episódio de Snowpiercer foi lançado pela Netflix no dia 25 de maio e a cada nova semana mais um é liberado. Diferentemente do filme homônimo, na série o apocalipse é um evento bastante recente, tendo acontecido 7 anos antes do período em que a trama se desenrola. Tomando as mudanças climáticas como ponto de partida, neste planeta — não tão fictício — a atmosfera está cada vez mais quente, colocando a vida terrestre em perigo. Para frear e até reverter o aquecimento global, um consórcio de cientistas de diversas nações lança, conjuntamente, uma substância que resfriaria a Terra. De fato, o resfriamento ocorreu, mas de forma imprevista e descontrolada. As temperaturas despencam drástica e continuamente, iniciando uma nova Idade do Gelo.

O visionário engenheiro Sr. Wilford, das indústrias Wilford, prevendo a iminente catástrofe, se antecipa e reúne investidores interessados em salvar suas vidas, em uma espécie de bunker ambulante: Snowpiercer, o trem de 1001 vagões, que percorre o globo sem parar. A bordo dele, em uma visão moderna da bíblica Arca de Noé, estão alguns poucos afortunados (bilionários e multimilionários) que puderam adquirir seu ticket e empregados suficientes para manter a máquina — e a sociedade de privilégios — funcionando. No dia da sua partida, no mundo externo faz -20º Celsius, e em pouco tempo toda a vida que conhecemos é extinta. O mundo vira gelo.

A bordo, além da elite e serventes já mencionados, também estão os “fundistas”, cidadãos que conseguiram fugir da morte invadindo, em uma sangrenta batalha, o último vagão do trem, chamado de “rabo”. Lá, se amontoam em um espaço sem luz, sem comida e sem higiene por anos, obrigando-os a tomar medidas extremas para sobreviver. Enquanto nos vagões da frente sobra conforto, comida, luxo e luxúria.

Apesar das críticas, especialmente se comparada ao filme de Bong Joon-ho, que tem uma estranheza encantadora (para quem assistiu Okja e Parasita, trata-se do mesmo diretor), a série tem atuações memoráveis, principalmente de Jennifer Connelly no papel de Melanie Cavill, personagem chave para todos os mistérios que envolvem a trama.

 

  • Publicado na edição impressa de 21 de junho de 2020