Padre pressionou por imposto no século XIX

A igreja Matriz, no centro de Santa Cruz, antes de ser reformada pela segunda vez

Historiadores têm foto do reverendo Bartholomeu Comenale, que fez ‘lobby’ para a criação de imposto para construção da Matriz

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Terceiro vigário da história de Santa Cruz do Rio Pardo, o padre Bartholomeu Comenale ficou 12 anos à frente do vicariato da Igreja Matriz de São Sebastião, o primeiro templo religioso da cidade. Ele sucedeu Próspero Antonio Iorio, que também era italiano e naturalizado brasileiro. Antes, num longo período, um dos fundadores do município, padre João Domingos Figueira, comandou o catolicismo em Santa Cruz. Os historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado conseguiram uma foto de Comenale. A imagem é 1890, exatos cinco anos antes do religioso deixar a cidade. Ela foi doada ao casal pelo engenheiro e memorialista Rosalvo Gizzi.

A religião católica foi muito forte em Santa Cruz desde os primórdios do lugarejo. Afinal, os fundadores Manoel Francisco Soares e o padre João Domingos Figueira possivelmente chegaram ao local no início dos anos 1850. Em 1862, o fazendeiro Manoel Soares decidiu doar 100 alqueires de suas terras, a pedido do padre Figueira, para o início do povoado que começava a surgir nas margens do rio Pardo, no local conhecido como “Chafariz”. Foi ali, perto da propriedade do padre Figueira, que foi construída a primeira capela de Santa Cruz. Segundo relatos do “Almanack da Província de São Paulo”, de 1887, a capela era uma construção rudimentar, de pau a pique e coberta.

Foto de 1890, resgatada pelos historiadores Junko e Celso Sato Prado, do padre Bartholomeu Comenale, o terceiro vigário da história de Santa Cruz do Rio Pardo.

Quando foi erguida uma igreja maior, no mesmo local, o vigário ainda era João Domingues Figueira. No templo, foi introduzida a imagem do santo que se tornaria o padroeiro de Santa Cruz do Rio Pardo, doada por Manoel Francisco Soares. Moradores antigos diziam que a imagem de madeira permaneceu na nova Igreja Matriz durante décadas, até desaparecer.

O povoado começou a se desenvolver e a capela tornou-se pequena. Em 1873, quando Santa Cruz já tinha sido elevada à condição de Freguesia, foi construída uma nova Igreja Matriz na praça Anchieta — atual Pedro César Sampaio —, no mesmo local onde o templo existe atualmente. O padre Figueira foi seu vigário até 1878, quando morreu.

Em 1883, o vigário forâneo já era o italiano Bartholomeu Comenale. De acordo com o historiador Celso Prado, o religioso foi fazendeiro em Santa Cruz do Rio Pardo, sendo proprietário de uma gleba no bairro da Mandassaia. Em poucos anos, acabou se tornando político, sendo eleito vereador e ocupando, em algumas ocasiões, a presidência da Câmara e a intendência municipal — cargo equivalente ao de prefeito.

O verso da foto, com dedicatória ao amigo João Gizzi, cuja família cedeu a imagem para os historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado

No entanto, foi uma figura controvertida. Segundo Celso Prado, logo que assumiu a Igreja Matriz, o padre Comenale começou a defender a instituição de um imposto municipal que seria revertido para a reforma do templo. A pressão surgiu efeito e o governo da província (hoje estado), através de uma resolução de 14 de março de 1884, autorizou a cobrança obrigatória do novo imposto. Todos os maiores de 21 anos deveriam pagar, “emancipados e alforriados”, até que os recursos fossem suficientes para a reforma completa da igreja.

Quem sonegasse o tributo — estipulado em dois mil réis anuais por pessoa — pagaria pelos parentes e estaria sujeito a uma multa de 20 mil réis. O recolhimento deveria ser feito em outubro e, em caso de atraso, seria elevado para cinco mil réis no mês seguinte. Havia, inclusive, previsão para penhora e confisco de bens para leilão judicial.

A igreja Matriz de São Sebastião em sua estrutura original

Em 1884, a Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo comunicou oficialmente à Província de São Paulo sobre a execução do imposto, com a nomeação de uma comissão para responder pelas obras da Igreja Matriz. Os nomeados foram o próprio padre Bartholomeu Comenale, que já era vereador, o coronel Emygdio José Piedade, chefe da Guarda Nacional no município, e o vereador Joaquim Manoel de Andrade. Durante muitos anos este último foi mencionado como o fundador da cidade, mas, na verdade, Joaquim foi responsável pela organização de Santa Cruz e pelo desenvolvimento rápido do município.

Claro que o imposto não foi aceito pela população. Além do fardo financeiro, havia críticas sobre a reforma da Matriz, que era arquitetonicamente horrível e ficou conhecida como “barracão”. Em meio ao desconforto, o padre Comenale deu por concluída a reforma da igreja em 1886, mesmo o prédio estando ainda em obras.

Em 1894, o padre foi transferido para outra paróquia e deixou Santa Cruz do Rio Pardo. Antes, foi obrigado a renunciar ao mandato de vereador.

Críticas

Para substituir Bartholomeu Comenale, chegou a Santa Cruz o monsenhor João Soares do Amaral, em abril de 1895. Ficou apenas alguns meses na cidade, mas o suficiente para criticar seu antecessor. O monsenhor, aliás, escreveu no “Livro do Tombo” a situação da Igreja Matriz após a reforma feita por Comenale: “Um barracão deficiente, mal construído, fora do alinhamento e esquadro e que não se deverá concluir, mas, sim, procurar levantar por nova planta de um profissional”.

Em 1903, o jornal “Correio do Sertão” publicou as revelações do monsenhor João Soares sobre a situação da paróquia. “Um estado verdadeiramente lastimável, debaixo de todos os pontos de vista. A igreja paupérrima de paramentos e alfaias, reinando a maior desordem e confusão no Livro do Tombo (…), com a escrituração toda por fazer-se”, escreveu o religioso.

Muitos anos se passaram até que a “nova” Igreja Matriz foi concluída na década de 1920. Considerado um dos mais belos templos católicos do interior paulista na época, a igreja tinha torres, relógio e sinos. Entretanto, com o passar das décadas o prédio tornou-se pequeno para atender os fiéis e as celebrações religiosas — inclusive casamentos. Na década de 1960, a antiga Igreja Matriz foi demolida para dar lugar a um novo templo, construído no mesmo local.

Hoje, até os padres e frades que acompanharam a demolição da antiga Matriz têm saudade do estilo original. Um deles é o frei Alberto Cardoso, que na época foi contra a demolição do templo e suas fascinantes torres. 

 

  • Publicado na edição impressa de 21 de junho de 2020