Zanata: ‘A melhor campanha’

A melhor campanha

 

João Zanata Neto

Olhando para o passado, rememora-se os planos de governo dos diplomados quem for bom de memória e tem o capricho de reservar as ideias propostas em uma gaveta empoeirada. Isto não é um problema, pois há um depositório oficial de tais propostas no TSE. A questão é que não temos o capricho de acompanhar o feitio das coisas planejadas. Não sei se é um desleixo ou desinteresse do brasileiro. Ou, quem sabe, sabe-se de antemão que não serão cumpridas mesmo.

De fato, não se vê na mídia notícia tipo: fulano termina hoje o seu mandato com 80% das metas planejadas em sua campanha. Normalmente, noticia-se que em alguns anos de mandato o político só cumpriu 30% das promessas e ou alterou muitas outras. Como regra, o político, espontaneamente, não fala algo prejudicial ao seu currículo. Foi, mesmo que a contragosto, necessária a invenção da imprensa, pois tornou possível à sociedade a fiscalização dos atos governamentais. Sem ela, muita coisa estaria encoberta e, talvez, jamais tomariam conhecimento dela os cidadãos. O princípio da transparência governamental veio para expor os atos governamentais quando ficou sacramentada a importância da comunicação oficial frente aos perigos da desinformação dos atos do governo. Mas, é evidente que a mídia foi o fator que sedimentou tal princípio.

Contudo, a transparência peca pela falta de indiscrição. Ela é a boa senhora que, no mais das vezes, se apresenta maquiada. Ela, às vezes, aparenta a falsa impressão de legalidade. Ela obedece a forma prevista, porém, inventa falsas verdades, falsos motivos, falsas empresas etc. Nos contratos públicos há um fenômeno econômico distinto denominado de inflação licitatória, pois quase tudo o que o governo adquire tem um valor muito elevado. Logicamente, isto é uma ironia dentro deste texto que não pretende ser tão sério. Mas, o assunto é sério e já não se entende a razão de se utilizar tal expediente de superfaturamento em plena globalização da informação. Será que esta estirpe de políticos entende que a sociedade é tão distraída a este ponto? Fica até ridículo usar um truque tão singelo. Alguns políticos estão mal-acostumados com a velha praxe e não se deram conta que os tempos mudaram. Não é por que tais expedientes não funcionam mais que se deve abnegá-los. Acho que a sociedade já se cansou de tais coisas, desacreditando cada vez mais nos políticos.

Seria muito mais louvável que o político, ao invés de elaborar planos governamentais, dissesse laconicamente que fará o necessário e o possível. Assim, não se terá grandes ilusões. Se não haverá grandes ilusões, é dizer que poderá haver outras ilusões menores. Diz-se isto porque o político e a sua política só se conhecem no decurso do seu mandato. Hoje, felizmente, há políticos que são exemplos de responsabilidade e discernimento e devem ser lembrados nos novos pleitos. A melhor campanha de um político é o seu bom governo. 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

 

  • Publicado na edição impressa de 21 de junho de 2020