Mistério: a compra de respiradores usados pelo hospital de Santa Cruz

O vereador Lourival Heitor (SD)

Sob intervenção, Santa Casa comprou respiradores antigos em Minas Gerais com dinheiro doado por um empresário

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Desde que começou a pandemia de coronavírus no Brasil, com a adoção de medidas restritivas, começaram também as denúncias de irregularidades na compra de respiradores para atender dezenas de hospitais em todo o País. Em Santa Cruz do Rio Pardo, a Santa Casa de Misericórdia adquiriu oito respiradores, dos quais cinco foram comprados com dinheiro doado por um empresário. Todos foram entregues em março. A tramitação para a aquisição dos equipamentos — e especialmente o preço — mostra que ainda há mistérios a esclarecer.

O DEBATE teve acesso às notas fiscais das compras e como elas aconteceram através de pedido de informações com base na Lei de Acesso à Informação. Antes, houve pedidos feitos diretamente à secretaria de Comunicação, mas a administração se recusou a fornecer os documentos. A sugestão é que o jornal encaminhasse o pedido diretamente à Santa Casa. O hospital está sob intervenção do município desde janeiro deste ano. O interventor Maurício Salemme Corrêa e a administradora Rosângela Alvim foram nomeados pelo prefeito Otacílio Parras (PSB).

A compra dos respiradores levantou suspeitas depois da informação de que o vereador Lourival Pereira Heitor (SD), líder do prefeito na Câmara, foi quem teria transportado os aparelhos. Lourival não é funcionário do hospital e está sendo investigado pelo Ministério Público por manter contratos com entidades que recebem dinheiro público, entre elas a Santa Casa. Ele disse que sempre foi colaborador do hospital e se dispôs a colaborar (leia mais abaixo).

De acordo com as informações do interventor do hospital, Maurício Salemme Corrêa, no dia 16 de março deste ano três equipamentos novos foram comprados pela Santa Casa, no valor unitário de R$ 47.426,00, totalizando R$ 142.278,00.

Porém, o crescimento dos casos de coronavírus fez com que empresários da cidade doassem recursos ao hospital. Um deles doou R$ 150 mil para a compra de respiradores. Foi aí que a história ganhou outros ares. De acordo com a Santa Casa, a empresa que forneceu os três primeiros respiradores informou que não havia mais equipamentos em estoque. O hospital alega que nenhum outro fornecedor possuía respiradores em estoque. A justificativa foi a procura desenfreada por respiradores, inflacionando o preço dos equipamentos disponíveis no mercado.

Assim, “com apoio do vereador Lourival Heitor”, segundo alega a Santa Casa, foram adquiridos cinco respiradores usados, no valor unitário de R$ 25 mil, totalizando R$ 125 mil. A empresa fornecedora “Mundo Médico” é de Marília, mas a Santa Casa foi orientada a retirar os equipamentos em Belo Horizonte. Os restantes R$ 25 mil da doação do empresário foram utilizados na compra de testes rápidos.

Imediatamente o vereador Lourival Heitor, na companhia do engenheiro do hospital, Cristiano Depizzol Perez, viajou até Minas Gerais para buscar os respiradores, com despesas pagas pelo hospital. A viagem, entretanto, foi em vão. De acordo com a versão oficial da Santa Casa, a empresa informou que a entrega seria adiada porque os aparelhos ainda estariam em revisão.

Os cinco respiradores usados só chegaram em Santa Cruz no dia 29 de março. Eles são do modelo “Inter-5”, que deixou de ser fabricado há muitos anos. Há dificuldade, por exemplo, na compra de peças para reposição. De acordo com informações que a reportagem recebeu, os cinco respiradores usados ainda nem foram utilizados pela Santa Casa, já que há outros de qualidade que ainda estão disponíveis para o corpo clínico.

O mesmo equipamento, comprado por R$ 25 mil a unidade, é oferecido na internet a partir de R$ 5 mil. Há também preços superiores, inclusive R$ 25 mil.

Antes do início da pandemia, o hospital de Santa Cruz do Rio Pardo tinha 11 respiradores instalados na UTI e Centro Cirúrgico, além de mais três em operação na UPA do Bairro da Estação, embora alguns estejam em manutenção. Com a compra de mais oito, a Santa Cruz passou a ter 22 respiradores.


NEGÓCIOS — Lourival diz que aproveitou a viagem para comprar carro

Lourival diz que ‘aproveitou
viagem’ para comprar carro

O vereador Lourival Heitor (SD), líder do prefeito Otacílio Parras (PSB) na Câmara Municipal, voltou de Belo Horizonte sem os respiradores da Santa Casa, mas trouxe na “bagagem” um Volkswagen Gol ano 2002. A viagem aconteceu em março, quando Lourival se dispôs a buscar os cinco respiradores usados adquiridos pelo hospital que já estava sob intervenção. Ele viajou em sua caminhonete particular na companhia do engenheiro da Santa Casa, Cristiano Depizzol Peres.

Quando apareceu com o Gol com placas de Belo Horizonte, Lourival foi logo alvo de comentários de quem sabia da viagem. Na sexta-feira, questionado por telefone sobre o assunto, o vereador resolveu ir pessoalmente à Redação para explicar o caso.

Segundo ele, o carro estava sendo negociado havia algum tempo e nada tem a ver com a compra dos respiradores. “Eu nem fiz parte da negociação dos aparelhos, e nem poderia. Apenas aproveitei a viagem para buscar o veículo”, disse.

“Aliás, eu já fiz várias viagens com minha caminhonete para ajudar a Santa Casa. Desta vez, perguntaram se eu poderia buscar os aparelhos”, explicou. “Quem me conhece, sabe que eu sempre compro e vendo carros usados. Aliás, eu não comprei o veículo em Belo Horizonte, mas em Contagem, na região metropolitana”, disse.

Sobre os comentários, Lourival disse que ficou sabendo e reputou-os como “pura maldade”. “Eu jamais faria qualquer coisa que fosse dar problemas para a Santa Casa. Eu já fiz outros negócios em várias viagens”, disse. Lourival disse que comprou o carro negociando através do “Market Place”, uma plataforma de negócios da internet. Como iria para Belo Horizonte, aproveitou a viagem para buscar o carro.

No entanto, sobre a viagem ter sido infrutífera, Lourival tem uma versão diferente da Santa Casa. O hospital disse que a empresa alegou que os aparelhos ainda estavam sendo revisados. Lourival, porém, disse que o engenheiro atestou que os equipamentos não estavam em boas condições e exigiu reparos. Segundo ele, seria um problema de calibragem.

Lourival lembra que a Santa Casa reembolsou algumas despesas da viagem — exatos R$ 1.098,97 —, mas que as demais ele pagou do próprio bolso, já que a distância até Belo Horizonte é superior a 900 quilômetros.

  • Publicado na edição impressa de 28 de junho de 2020