Beto Magnani: ‘A Batina’

Histórias do Magú

A BATINA

 

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— A dignidade é o mínimo. Não é conquista, não é mérito. É respeito à vida. Deve ser um direito primordial desde o ventre.

— O Frei Humberto dizia isso sempre.

— Lembro quando o Frei Humberto rezou a missa no dia da morte do Seu Joaquim. Foi na capela do cemitério. Ao lado do caixão havia outro caixão que ninguém sabia quem era o morto. Foi levado ao altar por uns moradores de rua que também não sabiam nem o nome do defunto. O Frei fez questão de rezar pelos dois e inventou uma história para o morto desconhecido. Uma bonita história de vida possível, mas improvável. Você lembra?

— Aquele frei era bem diferente. Não gostava nem de usar Batina.

— A cidade ficou chocada. Diziam que o Seu Joaquim não precisava passar por isso na sua morte. Ter um morador de rua como companheiro na missa de seu enterro.

— Vai saber também se o morador de rua queria estar ao lado do seu Joaquim.

— Pois é. Vai saber.

— Acho que o seu Joaquim gostou sim do fato. Talvez tenha levado a história com humor. Rido da situação. Ele era um sujeito bom.

— O Frei teve que se explicar com as madames da igreja. Elas não gostaram não. Sabe a mulher daquele médico que não tem uma mão? Esqueci o nome dele.

— Sei.

— Mudou de igreja de tão brava que ficou com o Frei Humberto.

— Aquele médico não é médico, é empresário. Estudou para ser dono de clínica.

— Jesus faria o mesmo. Rezaria pelos dois mortos sem distinção.

— E se as madames ficassem bravas, ele as mandaria cuidar da vida delas.

— E a mulher do médico teria que procurar outro Jesus.

— Que não existe.

— Pois é, não existe.

— Cadê o Padre que não apareceu até agora?

— Foi buscar outra batina na casa dele. A que tinha aqui manchou. Derrubou vinho na ultima transmissão da missa.

— Outro padre maluco. A gente sempre teve bem de padre por aqui.

— Com a graça de Deus.

Eu tinha entrado na matriz para cortar o caminho, ao invés de contornar pela praça. As portas estavam abertas apesar de não estar tendo missas presenciais na quarentena. Ouvi a conversa enquanto atravessava a igreja, não resisti. Eles não me viram. Saí com a memória da minha avó. Ela sempre contava a história desse dia da morte do Seu Joaquim e do desconhecido. Cada vez com um detalhe diferente a mais. Foi uma comoção na cidade. Também falava sempre do Frei que não gostava de usar batina. O Frei Humberto. Digno. Fiz o sinal da cruz. Nem percebi. Escapou. Segui. (Magú)

  • Publicado na edição impressa de 28 de junho de 2020