Matriz de São Pedro do Turvo chega aos 100 anos

A matriz de São Pedro do Turvo nos dias atuais (Foto: Oldack Roder)

Construção chegou a ser interrompida em 1917 por uma onda de gafanhotos

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Fundada em meados de 1850, a pequena São Pedro do Turvo, hoje com cerca de oito mil habitantes, não possuía mais do que uma pedra que marcou o início da cidade, próxima à confluência entre os ribeirões São João e São Domingos. Foi ali que, durante muitos anos, casebres foram erguidos e, com o Brasil ainda imperial, uma pequena capela abrigava as celebrações religiosas dos bandeirantes pioneiros. A Matriz, construída em 1920, completou seus 100 anos no último dia 29.

A primeira paróquia de São Pedro do Turvo foi erguida em 1875. E seu primeiro padre foi Décio Augusto Chéfalo.

Foi o padre José Julianetti que se empenhou, na segunda década de 1900 — já na República, portanto —, para que o pequeno distrito construísse uma Matriz. Na época, ele tinha cerca de 30 anos.

Italiano, Julianetti ainda sofria dificuldades para falar português. Apesar do impasse, realizou festas e campanhas para angariar fundos que seriam destinados à construção da igreja.

Através de parentes que ainda moravam na Europa, comprou centenas de imagens delicadamente esculpidas em madeira. Sinos também foram adquiridos. Tempos depois, seriam instalados no alto do edifício.

Uma segunda dificuldade quase arruinou o projeto de construção da Matriz. Não havia tijolos suficientes para erguer a edificação. Coube à viúva do coronel Marques Balbino — cujo nome se perdeu na história — ceder à igreja uma de suas terras. Os religiosos construíram, então, uma olaria pela qual conseguiram suprir a demanda das pedras.

Julianetti, que angariou fundos para a construção

A construção da Matriz, no entanto, teve de ser interrompida em 1917. Naquele ano, a Rússia czarista sofria uma série de derrotas bolcheviques e o país se tornaria, pouco depois, a União Soviética.

Mas nada disso afetou a construção da igreja. O que aconteceu, na verdade, é que uma onda de gafanhotos, segundo consta dos registros históricos, assolou as plantações da região. O prejuízo financeiro foi enorme.

José Julianetti não desistiu. Alugou uma charrete, com a qual viajava sertão adentro para angariar fundos à igreja. As viagens duraram cerca de dois anos.

Nada foi em vão. Em 29 de junho de 1920, a Matriz foi fundada e um evento solene deu início às atividades paroquiais.

Ainda existem alguns convites para a inauguração da Matriz. Trata-se de um folheto repleto de programações religiosas que durariam cerca de uma semana. “O povo de São Pedro do Turvo, dirigido pelo seu zeloso Vigário, por uma laboriosa comissão, firme nas suas tradições religiosas, em dois annos, levantou um templo que é um dos mais bellos da diocese de Botucatú. De estylo puro gothico, se eleva magestoso, por cima de um bello panorama, e com a sua elevada torre, mostra ao longe, a fé , deste nobre povo sampetrense. Desde já, estão se preparando grandes festas para a inauguração desta nova matriz, que serão realizadas pelo exmo. rev. sr. Bispo Diocesano, Dom Lucio Antunes de Souza, no dia 29 do proximo mez de Junho”, dizia o convite na época — redigido com as regras ortográficas de então.

Desde que foi fundada, a igreja não sofreu profundas mudanças — diferentemente da Matriz de Santa Cruz do Rio Pardo, que foi totalmente modificada no século passado.

Uma mudança, porém, foi responsável por centenas de críticas de párocos da diocese de Botucatu — da qual São Pedro e Santa Cruz faziam parte na época. Exótico, o padre Antônio Marcíllio, que comandou durante muitos anos a matriz, ordenou que ela fosse pintada com 20 cores diferentes.

A maioria dos dados foi relatada no livro “Memórias de São Pedro do Turvo”, da historiadora Tereza Costa da Cunha.

Hoje, quem está à frente da Matriz de São Pedro é o padre Augustine, que veio da Índia e é já considerado uma personalidade da comunidade de São Pedro do Turvo. 

* Colaborou: Oldack Roder

  • Publicado na edição impressa de 5 de julho de 2020