Elias Abeche, o nono ‘pracinha’

ARMAS CONTRA O NAZIFASCISMO — ‘Lilo’ Abeche posa com armamentos pesados no front de batalha na Itália

Além dos oito ‘pracinhas’ imortalizados em Santa Cruz, Elias Moyses Abeche também serviu a FEB na Segunda Guerra

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Um monumento escondido entre os trailers do “lanchódromo” no final da rua Euclides da Cunha, em Santa Cruz do Rio Pardo, traz o nome dos oito santa-cruzenses heróis da Segunda Guerra Mundial. São os “pracinhas” que batalharam na Itália pela FEB — Força Expedicionária Brasileira: Antônio Vidor, Antônio Inácio da Silva, Biécio de Britto, Edson Dias Brochado, José Bernardino de Camargo, Oswaldo Carquejeiro, Salatiel Dias e Valdomiro Eliseu do Nascimento. Porém, houve mais um soldado que se tornou “santa-cruzense” após o conflito mundial.

É Elias Moyses Abeche, um comerciante do ramo de eletrodoméstico que veio de Jacarezinho-PR, se casou com a santa-cruzense Maria Queiroz e passou a morar na cidade até seus últimos dias.

Abeche nasceu em São Pedro do Turvo. O pai foi um próspero atacadista de cereais, combustíveis e pneus, com armazéns em Curitiba, Porto Alegre e São Borja, esta última terra do ex-presidente Getúlio Vargas, com quem fez amizade.

Quando foi convocado para defender o Brasil na Segunda Guerra Mundial, Elias Moyses — que já era conhecido como “Lilo” — morava em Curitiba e tomava conta das filiais da empresa da família. O ano era 1943.

ITÁLIA — Nos campos de batalha em 1943 e ‘1944, com a farda militar

Abeche participou dos combates de Monte Cassino e Montezzi, enfrentando, na verdade, soldados alemães. É que, apesar de estarem na Itália, a força bélica do “eixo” era formada

Moyses Abeche, em foto posada

prioritariamente por alemães, que tentavam defender as posições chaves para evitar o avanço do quinto exército norte-americano, a quem os brasileiros foram incorporados — e treinados.

Segundo Miguel Abeche Neto, um dos três filhos de “Lilo”, o pai sempre narrava, embora não gostasse, as façanhas dos brasileiros na guerra, principalmente citando os heróis das conquistas na Itália. Um deles, sempre lembrado por “Lilo”, foi Rui Moreira Lima, criador do lema “Senta a Pua” do grupo de aviação de caça brasileiro e participante de 94 missões na Segunda Guerra. Apesar do currículo, Moreira foi preso e torturado durante a ditadura militar porque se opôs ao golpe de 1964.

 

Os soldados brasileiros permaneceram em combate até julho de 1945, quando retornaram ao Brasil consagrados nas ruas e com o governo decretando feriado nacional. No filme oficial da volta dos pracinhas, feito pelo governo federal na época, Abeche aparece desfilando num jipe militar.

Coincidentemente, seu maior amigo nos campos de batalha foi o santa-cruzense Biécio de Britto, que também aparece em outro filme, de 1944, feito pelos norte-americanos em solo italiano. A narração original é em inglês e mostra uma tropa aliada recepcionada pelo general Mark Wayne Clark. Ex-inspetor de alunos da escola “Leônidas do Amaral Vieira”, Biécio hoje é nome da escola de Caporanga.

ENTRE AMIGOS — “Lilo” Abeche e a mulher Maria Queiroz participam da festa de casamento de “Ninho” Manfrin

Mas Lilo Abeche, como a maioria, trouxe traumas. Ele costumava ter intensas dores de cabeça em determinados períodos.

Não gostava muito de falar sobre os combates porque lembrava que “guerra é um horror”. “Morrer em um combate é horrível, mas matar também é horrível”, costumava dizer, segundo o filho Miguel Abeche Neto. Elias afirmava que, numa guerra, “ou você mata ou morre — não há escapatória”.

A conquista da TV

De volta ao Brasil, Elias Moyses Abeche conheceu Maria Queiroz em Santa Cruz do Rio Pardo, com quem se casou. Virou um “santa-cruzense” de coração e adorava a cidade. Teve três filhos: Emi Lena, Elizabeth — que morreu em 1986 — e o economista Miguel Moyses Abeche Neto, colaborador do DEBATE nos anos 1970 e 1980.

Em Santa Cruz, Lilo foi proprietário da loja “Rádio Arte”, especializada em eletrodoméstico, que fica na rua Conselheiro Dantas. Nos anos 1960, foi um dos principais personagens para a vinda dos sinais da televisão na cidade. “Ele queria vender aparelhos de televisão. E vendeu muito”, conta o filho Miguel.

Em 1965, não era apenas “Lilo” Abeche que vendia televisores. A “Santa Cruz Elétrica”, do ex-prefeito Carlos Queiroz, também desejava incrementar o ramo com a chegada das imagens na cidade. Até aquele momento, os aparelhos transmitiam apenas chuviscos.

A loja, aliás, que ficava a uma quadra da praça Leônidas Camarinha, chegou a construir uma torre de 40 metros e conseguiu captar imagens da TV Coroados do Paraná, hoje “RPC Londrina”.

Entretanto, isto foi possível porque Lilo Abeche instalou um mini repetidor japonês em Domélia, antigo distrito de Santa Cruz do Rio Pardo, num ponto bem alto entre o município e Bauru. A ideia era conseguir captar a imagem da TV Tupi de São Paulo ou da antiga TV Bauru (hoje TV Tem), que iniciou suas transmissões em 1960.

Abeche contou com a ajuda de um engenheiro eletrônica da fábrica de televisores Colorado. Porém, não conseguiram as imagens nem da Tupi e nem da TV Bauru. Para surpresa de ambos, surgiu nos monitores, ainda sem cores, as imagens da TV Coroados, de Londrina.

Pouco tempo depois o aparelho quebrou, mas Santa Cruz já estava recebendo as imagens da TV Excelsior, graças a um consórcio montado pela família Ferraz Egreja com o apoio de rotarianos da cidade, entre eles Clélio Zanoni.

Elias Moyses Abeche morreu em dezembro de 1982. No sepultamento, recebeu todas as honras atribuídas a um herói de guerra, como a esquife carregada pelos atiradores do Tiro de Guerra, uma salva de 21 tiros e o “toque do silêncio”.


Brasil sofreu baixas, mas
deixou lições na guerra

Elias Moyses Abeche, junto com os demais oito santa-cruzenses que foram aos campos de batalha da Segunda Guerra, na Itália, fizeram história com a conquista de pontos considerados estratégicos no chamado “front do Mediterrâneo”. Os cerca de 25 mil “pracinhas” brasileiros, entretanto, sofreram num primeiro momento, especialmente pela falta de treinamento.

Com várias baixas num primeiro combate, a tropa brasileira recuou e recebeu novos treinamentos dos norte-americanos, sob comando do general Mark Clark. Os “pracinhas” também aprenderam muitas adaptações, como usar jornal sob as roupas para enfrentar o frio. Na verdade, quem idealizou os uniformes da FEB não pensou na temperatura baixa da Itália.

COM VARGAS — Em São Borja, na fazenda de Getúlio, Lilo está atrás do presidente; ao lado de Vargas, está o cunhado de Abeche, Nacim Queiroz

A façanha mais festejada — e a mais sangrenta — foi a tomada de Monte Castelo. Numa ofensiva no final de 1944, cerca de 400 soldados morreram. Mas em fevereiro de 1945, o Brasil começou a bombardear os alemães na montanha, enquanto caças do esquadrão “Senta a Pua” metralhavam os inimigos.

No dia 21, três batalhões da FEB recebem ordens para avançar, ainda sob intenso tiroteio dos alemães. No mesmo dia, o general norte-americano Mark Clark visita o comandante das operações brasileira, o general Mascarenhas de Moraes e decidem ordenar o desfecho.

No início da tarde, os alemães recebem reforços, mas os pracinhas continuam avançando. Sob chuva de morteiros, houve combates diretos, corpo a corpo, entre brasileiros e alemães. No fim da tarde, o tenente-coronel brasileiro Emilio Rodrigues Franklin anuncia pelo rádio: “O Castelo é nosso”.

* Colaborou: Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 5 de julho de 2020