Martha Rocha animou baile em Ourinhos

EM CORES — Foto de José Machado colorida à mão por Francisco Almeida; Martha Rocha (à esquerda) durante o baile em Ourinhos

Primeira Miss Brasil e quase Miss Universo, que morreu no Rio de Janeiro no sábado, 4, esteve em Ourinhos em 1955

 

Martha agradece a homenagem do jovem Luciano Correia (ao seu lado)

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O Brasil perdeu no último dia 4 a primeira Miss de sua história. Martha Rocha morreu após sofrer um infarto depois de um quadro grave de insuficiência respiratória. Ela tinha 87 anos e foi, durante décadas, uma mulher símbolo da beleza mundial. Passou seus últimos dias numa casa de repouso em Niterói, pois precisava de cuidados intensivos após contrair uma infecção hospitalar há cinco anos. Martha já não conseguia andar. Deixou três filhos e um legado que orgulhou os brasileiros.

Nascida em Salvador, a mulher que encantou o mundo foi eleita a primeira Miss Brasil da história. Foi em 1954, num concurso realizado no Rio de Janeiro. Tinha 21 anos, mas dizia ter 18 porque gostava de parecer mais jovem. Virou ícone de beleza a ponto de uma picape Chevrolet, considerada a mais bela na época, ficar conhecida como “Martha Rocha”.

Martha Rocha deixa a residência do médico Alfredo Bessa para seguir em direção ao baile no GRO; entre as acompanhantes estão Selma Abucham e Irene D’Andrea

Eleita Miss Bahia, no mesmo ano venceu o concurso Miss Brasil. No mês seguinte, Martha disputou nos Estados Unidos o título de Miss Universo. Era a favorita nas casas de apostas, mas ficou em segundo lugar — a eleita foi a estadunidense Miriam Stevenson. No entanto, ganhou fama internacional e virou referência de beleza no Brasil.

Segundo a revista “O Cruzeiro”, uma das maiores publicações do Brasil na época, Martha perdeu o título máximo de beleza para a concorrente “por duas polegadas a mais”, fato que se consolidou durante décadas. Na verdade, era uma invenção para consolar o orgulho dos brasileiros, conforme a própria Martha contou em sua autobiografia lançada em 1999.

A eterna miss disse que, nos Estados Unidos, ninguém tirou suas medidas e que ela nunca soube se isto era realmente verdade. Lenda ou não, as duas polegadas viraram até uma marchinha de carnaval, cuja paródia repetia: “Tem dó, tem dó, seu juiz”!

Naa visita ao grupo escolar com o diretor Dalton Morato (hoje nome da escola), a Miss é saudada por crianças

Em Ourinhos

Martha participou de filmagens em Hollywood com os atores Tony Curtis e Jeff Chandler e em seguida passou a ser convidada para eventos em todo o País. Uma dessas aparições aconteceu num baile beneficente em Ourinhos, na noite de 29 de junho de 1955, um ano após disputar o título de Miss Universo. O professor de História José Carlos Neves Lopes, nascido em Ourinhos e hoje residente em Guarujá, possui as fotografias do evento que encantou a cidade.

Durante baile no GRO, Martha Rocha está na mesa das autoridades (à dir.)

O professor herdou do pai, Francisco de Almeida Lopes — fotógrafo amador em Ourinhos durante décadas —, a paixão por fotografias. Autor do livro “Meu Pai e a Ferrovia”, José Carlos lembra que uma parte do acervo fotográfico de Francisco desapareceu ao longo dos anos, como uma rica coleção de fotografias do período antigo da Fapi de Ourinhos. Outro lote doado ao museu de Ourinhos também desapareceu, possivelmente destruído após uma enchente.

As fotos de Martha Rocha, na verdade, foram tiradas por José Machado Dias, fotógrafo profissional com quem o ferroviário Francisco trabalhava. Mas todas foram preservadas por José Carlos. São imagens em preto e branco, mas o pai do professor chegou a “colorizar” algumas delas, usando tinta em bisnaga. “Era uma especialidade dele. Meu pai gostava muito de colorir as fotos e o fazia à mão, num verdadeiro trabalho de artesão”, contou.

As fotografias estão disponibilizadas no blog de José Carlos Neves Lopes — “Memórias Ourinhenses” — na internet. O professor conta que a visita de Martha Rocha a Ourinhos teve como objetivo arrecadar fundos para a caixa escolar do “Grupo Escolar Virgínia Ramalho”. A Miss Brasil foi a convidada especial de um baile-concurso, onde haveria um concurso de beleza, cuja vencedora foi a filha do ex-prefeito Hermelino de Leão.

O baile nos salões do Grêmio Recreativo, animado pela orquestra de Lino Ferrari, movimentou Ourinhos e foi transmitido ao vivo pela rádio Clube. Martha desembarcou do avião da “Real” no aeroporto da cidade e seguiu para a residência da família do médico Alfredo Bessa, onde ficou hospedada e foi recepcionada num jantar. Antes, visitou o Grupo Escolar que seria beneficiado com a renda do baile e foi recebida por dezenas de crianças e pelo diretor Dalton Morato Villas-Boas.

BELEZA — Martha na mesa nobre do baile, ao lado de Lília Gomes de Leão, que venceu o concurso de beleza

Durante o baile, pouco antes do concurso de beleza, o advogado e poeta Luciano Correia da Silva fez uma saudação especial a Martha Rocha. O texto original datilografado, intitulado “Exaltação a Martha Rocha”, foi resgatado e digitalizado por José Carlos Neves. Também baiano de nascimento, Luciano — que morreu em 2008 e foi colunista do DEBATE — não economizou elogios à beleza da Miss Brasil, citando “seu sorriso divino, seus olhos fascinantes, seu garbo fiel de ninfa encantadora, de musa brasileira”. Luciano escreveu que, se alguém perguntasse como era o seu País, ele daria apenas uma resposta: “É a terra de Martha Rocha”.

A Miss Brasil deixou Ourinhos no dia seguinte. A cidade, porém, jamais se esqueceu daquela noite memorável, em que a beleza estonteante de Martha Rocha abrilhantou um baile beneficente.

* Fotos cedidas por José Carlos Neves Lopes

 


Picape ‘Martha Rocha’ de 1955, recuperada e estilizada: série histórica

Miss virou símbolo de beleza

Martha Rocha teve seu nome ligado ao glamour, batizou receita de bolo e até uma torta ganhou o seu nome. Mas nada foi tão marcante quanto a picape Chevrolet 3100, que ganhou o nome popular de “Martha Rocha” na série fabricada a partir de 1955.

O carinhoso “apelido” da picape veio do fato de a Miss Brasil ter perdido o título mundial por ter duas polegadas a mais no quadril. A bela Chevrolet série 3100 tinha uma cabine mais larga. Nem mesmo o machismo do “batismo” impediu que o apelido da picape permanecesse no imaginário popular até hoje.

Em Santa Cruz, um processo de suposta corrupção movimentou grupos políticos durante anos, a partir da década de 1960. Era uma possível fraude na compra de uma picape “Martha Rocha” pela prefeitura, caso que quase levou o ex-deputado Lúcio Casanova para a cadeia. Ele ficou foragido e só apareceu na véspera da eleição, quando a prisão já não era possível.

Eleito, adquiriu imunidade. Anos depois, foi absolvido pela Justiça. Mas o “caso Martha Rocha” alimentou a política santa-cruzense durante anos. 

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 12 de julho de 2020
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