Pedro Queiroz, o ‘mago’ dos bastidores

‘FARO POLÍTICO’ — Pedro (à esquerda, de óculos escuros) em comício de Lúcio em 1947, quando foi eleito vereador

Ele respirou política a vida toda, foi vereador várias vezes e foi considerado um “mestre” nas articulações de bastidores

 

Com a filha Vera durante baile de debutantes

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Vereador por quatro legislaturas e considerado genial em estratégias nos bastidores da política de Santa Cruz do Rio Pardo, Pedro Queiroz faz muita falta. Durante décadas, era o “para-choque” do grupo político do ex-prefeito e deputado Leônidas Camarinha — depois sucedido por Carlos Queiroz e Joaquim Severino Martins —, os chamados “vermelhos”. Foi o típico político respeitado pelos adversários, mas que nas campanhas eleitorais se transformava no principal alvo de ataques. É que ele praticamente encarnava o grupo de Camarinha.

Nascido em 1920, Pedro Queiroz foi comerciante e sócio da “Riopardense”, nome de uma antiga concessionária Volkswagen em Santa Cruz do Rio Pardo. Mas era na política que se realizava. Na época da ditadura militar, era chamado de “Golbery do Couto e Silva caipira”. A alusão tinha lógica, pois Golbery foi o general articulador político nos governos militares de Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Nos anos 1950, Pedro Queiroz conversa com Cyro de Mello Camarinha, logo embaixo do palco, durante comício de vitória em eleições estaduais

De fato, Pedro sempre gostou dos bastidores, mesmo que isto o prejudicasse. Afinal, era dele a função de defender os “vermelhos”, mesmo em momentos difíceis. Porém, invariavelmente, saia-se muito bem. Ficava com as críticas, mas resolvia a situação para os líderes de seu partido.

Pedro Queiroz também foi fiel. Muito fiel. Sempre esteve ao lado de Leônidas Camarinha e seus sucessores. Quando houve o “racha” no grupo até então considerado invencível, em 1958, Pedro ficou com Lulu.

Disputou a Câmara pela primeira vez em 1947, quando o candidato a prefeito lançado por Camarinha era Lúcio Casanova, que 12 anos depois seria um dos principais adversários do deputado. Nas eleições de 1951, Pedro já era reconhecido como hábil articulador e foi reeleito apoiando o candidato vitorioso do grupo a prefeito, Cyro de Mello Camarinha. Venceu novamente as eleições para a Câmara em 1955, apoiando Lúcio Casanova pela última vez.

Pedro (à esquerda) com a família, durante celebração em clube de Santa Cruz

Em 1958 aconteceu a cisão no grupo de Lulu Camarinha. Lúcio, Onofre, Anísio Zacura, Reinaldo Zanoni e outros abandonaram o deputado e se aliaram à UDN de José Osiris Piedade e Alziro Souza Santos. No ano seguinte, o grupo de Lulu foi derrotado pela primeira vez, com a vitória de Onofre Rosa de Oliveira. Pedro, também pela primeira vez, perde a cadeira de vereador.

Foi aí que a atuação de Pedro nos bastidores começou a se destacar. Foi ele um dos principais articuladores da campanha eleitoral de seu primo, Carlos Queiroz, em 1963. A indicação — considerada muito arriscada na época — foi do próprio Lulu Camarinha, sogro de Carlos. Por 117 votos, os “vermelhos” voltam ao governo. De quebra, Pedro Queiroz reconquista a cadeira de vereador. Foi seu quarto e último mandato na Câmara de Santa Cruz.

Em 1951, jornal de Santa Cruz faz homenagem a Pedro Queiroz na capa

Democrata, Pedro não ligava para as críticas, que no caso dele eram exageradas. Em eleições, por exemplo, quando o partido de Queiroz estava no governo, era comum carros de som da oposição passarem em frente à residência da família com uma música de Raul Gil aos berros: “Para Pedro, Pedro para”. “Não era fácil aguentar aquilo o dia todo”, confirma Arlete Assis Queiroz, viúva de José Carlos Queiroz, um dos filhos de Pedro que morreu no ano passado.

A partir de 1973, com a posse de Joaquim Severino Martins, Pedro Queiroz se tornou chefe de gabinete do prefeito. Quatro anos depois, já perto das eleições, um drama: Severino é condenado pela Justiça de Santa Cruz do Rio Pardo à prisão, por suposta corrupção eleitoral. A notícia saiu na primeira página da “Folha de S. Paulo” e seria o fim do grupo, em plena campanha eleitoral.

Mas Pedro Queiroz foi chamado e coube a ele fazer a defesa política de Joaquim Severino, pois a jurídica estava a cargo de grandes advogados. Pedro convocou a grande imprensa e passou a dar declarações fortes, jogando a culpa nos “comunistas” de Santa Cruz. Em plena ditadura, as frases estrategicamente preparadas de Pedro Queiroz mudaram o rumo da opinião pública e o grupo acabou vencendo as eleições, com o vice de Joaquim sendo eleito. E com uma boa vantagem.

Claro que nem existiam comunistas na cidade, conforme o próprio Pedro reconheceria, aos risos, anos depois. Porém, ele salvou o prestígio de Joaquim Severino — que depois seria absolvido no Tribunal Superior Eleitoral — e a carreira empresarial do líder político.

Concessionária “Ripoardense”, da qual Pedro Queiroz foi sócio em 1964

Com Aniceto Gonçalves na prefeitura, Pedro se manteve na chefia de gabinete até ser demitido. Na época, o líder Joaquim Severino se desentendeu com o prefeito Aniceto e a conta sobrou para o principal assessor de Aniceto Gonçalves.

Onofre Rosa venceu as eleições de 1982, derrotando, num cenário com cinco candidatos, Joaquim Severino. Entretanto, a oposição fez maioria na Câmara e Onofre teve dificuldades para governar. Mais uma vez, foi Pedro quem “costurou” um acordo político entre o prefeito e o grupo de Joaquim Severino.

Aposentado, Pedro Queiroz ainda respirou política mesmo quando um câncer o atingiu. Morreu em 1989, aos 69 anos, sem ver a primeira eleição para presidente desde o golpe militar de 1964. Ele deixou a mulher, Valy Vecchio Queiroz, com quem teve os filhos José Carlos, Carlos Alberto, Vera Lúcia, Paulo e Ângela.

Após sua morte, a família descobriu muitas famílias que Pedro ajudava. Não dizia nada para ninguém, mas distribuída cestas básicas e, não poucas vezes, até dinheiro. Isto sem contar auxílios para destravar aposentadorias ou documentos.

Pedro Queiroz foi homenageado com o nome do Mercado Municipal construído em 1994 no terreno municipal onde fica a empresa Qualità. No entanto, o fracasso do empreendimento “cassou” a homenagem.


Nos anos 1980, Pedro homenageia Onofre Rosa, seu adversário político

Político era chamado
para solucionar crises

Na década de 1960, uma eleição caminhava para um clima tenso, com repetidas ameaças dos dois grupos políticos de Santa Cruz. Para piorar, na reta final foram marcados dois comícios separados apenas por algumas quadras. Tudo indicava que a violência iria explodir. Consultados, o delegado e até o juiz eleitoral disseram que não poderiam proibir os comícios. Como resolver o impasse? Só mesmo chamando Pedro Queiroz.

Foi, então, que o experiente político teve uma brilhante ideia. Como os comícios começariam por volta de 20h, ele conversou com o gerente da Companhia Luz e Força (atual CPFL), Nelson Fleury Moraes, explicou o drama e pediu que um providencial “blecaute” acontecesse meia hora antes. Pedro foi atendido e a cidade ficou às escuras. Não houve comício algum e a desculpa foi uma “pane” na subestação.

Houve também situações hilárias, como um comício do candidato Joaquim Severino Martins no distrito de Sodrélia, em 1976. Pedro foi encarregado de acertar o lugar do evento e a montagem do palanque. Experiente, Queiroz foi a Sodrélia e percebeu que havia um circo “mambembe” instalado há semanas no distrito. Na verdade, o pequeno circo não tinha sequer recursos para seguir viagem.

Pedro conversou com o dono e propôs alugar toda a estrutura para o comício do dia seguinte. Afinal, haveria a presença do deputado Antônio Salim Curiati. O homem ficou radiante e prometeu deixar tudo arrumado para o aguardado comício.

No dia seguinte, quando os políticos chegaram, havia uma grande placa na porta do circo, logo abaixo dos dizeres fixos, cujas palavras se misturaram: “Hoje grande espetáculo, com Joaquim Severino e Curiati”.

Mas a história não acabou. Retirada a placa, o povo lotou o circo para ouvir os políticos. Pedro Queiroz ficou na plateia, com a mulher Valy. Minutos depois, Valy disse ao marido que não estava se sentindo bem.

Preocupado, Pedro ouviu que a mulher estava se sentindo enjoada, como se o teto estivesse virando. Não era nenhum mal-estar. De fato, a lona do circo veio abaixo, para desespero das pessoas. Ninguém se feriu. 

* Colaborou Toko Degaspari

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  • Publicado na edição impressa de 19 de julho de 2020