Aqueles que perdemos: família chora perda de casal em uma semana

O casal Pracídio e Jandira Antônio de Souza: os dois morreram num intervalo de sete dias após complicações no quadro do novo coronavírus

Casal de idosos foi contaminado no distrito de Caporanga; parte da família também está com a covid-19

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Sete dias. Esta foi a exata diferença entre a morte de Pracídio de Souza, 88, e da sua mulher Jandira Antônio de Souza, 80. Moradores no distrito de Caporanga, os dois foram contaminados pela Covid-19 junto com outros quatro membros da família — três filhos e um genro. O casal era querido no distrito e muito religiosos, um dos primeiros fiéis da Congregação Cristã no Brasil. Quis o destino que os dois fossem as primeiras vítimas da pandemia em Santa Cruz do Rio Pardo.

Aos 88 anos, Pracídio era saudável, dirigia seu próprio carro e gostava de ir à propriedade rural a pé. No final de junho, sentiu os primeiros sintomas e foi internado. Entubado, não resistiu e morreu no dia 14 de julho, na UTI da Santa Casa de Misericórdia. Jandira chegou a receber alta do hospital, mas teve complicações e voltou a ser internada. Morreu na quarta-feira, 22, sem ao menos saber da morte do marido.

Enlutada, a família lamenta a versão difundida de que houve aglomeração familiar numa “pamonhada”, que seria a causa das contaminações. Segundo Débora Ramos, neta do casal, o evento aconteceu em maio e sequer chegou a reunir muitos parentes. “Meu avô Pracídio, que morreu da covid-19, nem compareceu”, lembra Débora.

No entanto, a versão se espalhou e chegou a ser comentada até pelo prefeito Otacílio Parras (PSB) num de seus vídeos diários. Ele certamente ouviu a conversa de algum morador de Caporanga.

A mãe de Débora, por sinal, também ficou doente, mas já se recuperou. “A vizinha da frente pegou primeiro”, disse. O pai, Raul, não teve sintomas e o exame foi negativo. Um dos três filhos ainda está internado e não pôde comparecer ao sepultamento dos pais.

A verdade é que todos os moradores de Caporanga estão sob risco de contrair a covid-19. Distrito com menos de 1.000 habitantes, as famílias estão convivendo com pessoas sem máscaras nas ruas e a realização constante de churrascos e festas em chácaras, muitas vezes promovidas por pessoas de outras cidades. Na última quarta-feira, 22, o mesmo dia da morte de Jandira, o número de infectados em Caporanga passava de 20. Não há uma fiscalização rígida por parte do Poder Público.

De fato, Raul Ramos, sogro do casal falecido e pai de Débora, diz que conhece uma família cuja contaminação começou com um dos filhos que mora em São Paulo e veio até Caporanga para visitar os pais. “A verdade é que faltam cuidados no distrito. As pessoas precisam se conscientizar mais”, afirmou.

Pelo menos outras seis famílias de Caporanga estão com casos de parentes contaminados. O prefeito Otacílio Parras tem feito apelos aos moradores do distrito, principalmente sobre o uso obrigatório de máscaras.

Família típica

Pracídio Souza e Jandira eram moradores antigos, da época em que o povoado de Caporanga ainda não tinha o “status” de distrito, que só ganhou em 1944. Antes, quando Pracídio nasceu, era apenas distrito policial. O casal foi um dos fundadores da Congregação Cristã no Brasil no local.

Ele seguiu os passos dos pais, sendo agricultor e pecuarista. Pracídio e Jandira se casaram em Caporanga e já tinham completado 64 anos de união. Juntos, trabalharam com a compra e venda de gado e no setor leiteiro. Tiveram cinco filhos e deixaram também dez netos e oito bisnetos.

Uma das características de Pracídio era contar histórias antigas de Caporanga. Segundo a família, quando isto acontecia, todos se reuniam em volta dele para ouvi-lo. Muitas destas histórias, porém, se foram, sepultadas para sempre no cemitério de Caporanga, onde Pracídio e Jandira continuam juntos. 

 

  • Publicado na edição impressa de 26 de julho de 2020