Familiares de pracinhas criticam mudanças na praça

Biécio de Britto (à direita), nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial. Inspetor de alunos aposentado, morreu sem se livrar de traumas provocados pelas constantes explosões

Inaugurado por Carlos Queiroz no 98º aniversário da cidade, em 1968, monumento é uma homenagem aos santa-cruzenses combatentes da Segunda Guerra Mundial

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A retirada do monumento em homenagem aos “pracinhas” santa-cruzenses que lutaram contra o nazifascismo na Itália, mesmo com a construção de um novo, é contestada por familiares dos heróis que estão estampados numa placa na praça José Eugênio Ferreira, conhecida como “Expedicionários”’. A obra foi inaugurada em 20 de janeiro de 1968, no 98º aniversário de Santa Cruz do Rio Pardo, na gestão do ex-prefeito Carlos Queiroz. A mudança do monumento foi autorizada pelo prefeito Otacílio Parras para beneficiar um comerciante, que vai instalar um contêiner no espaço.

Uma placa de bronze diz que a cidade homenageia “seus heroicos expedicionários”, seguindo-se os nomes de Antônio Vidor, Antônio Inácio da Silva, Biécio de Britto, Edson Luiz Brochado, José Bernardino de Camargo, Oswaldo Carquejeiro, Salatiel Dias e Waldomiro Elizeu do Nascimento. São os oito soldados de Santa Cruz que seguiram para a Itália e participaram dos combates da Segunda Guerra Mundial de 1943 a 1945.

LEMBRANÇAS — Boanerges mostra capacete do pai Biécio, com estilhaços de granada; ao lado, filme da guerra feita pelos Estados Unidos mostra Biécio de Britto

Boanerges de Britto, filho do soldado Biécio de Britto, que era inspetor de alunos da escola “Leônidas do Amaral Vieira” quando se aposentou, considera que qualquer alteração no monumento histórico é um desrespeito às famílias dos expedicionários, inclusive a mudança de local para beneficiar um comerciante. “Sou contra. Por mim, não haveria nem lanches naquela praça”, afirmou. “É um desrespeito também para os familiares dos heróis da Segunda Guerra”, completou.

Biécio de Britto nem era militar, mas se ofereceu voluntariamente para se alistar na FEB porque havia um clima de patriotismo na época. O santa-cruzense chegou a ser ferido no campo de batalha, quando uma granada explodiu a centímetros dele. Precisou ser operado num hospital improvisado no campo. Quando se recuperou, a guerra acabou.

O filho Boarnerges ainda guarda o capacete usado pelo pai, com estilhaços da granada. Em 1945, a família fez questão de fazer uma surpresa a Biécio, viajando para o Rio de Janeiro e aguardando o desembarque das tropas. Todos desceram do navio, menos Biécio. Foram alguns minutos de apreensão, até que o capitão constatou que o santa-cruzense dormia em meio às batatas.

O soldado teve traumas de guerra e procurava refúgio nos períodos de festas na cidade. É que Biécio não suportava o barulho dos estampidos dos rojões. Ele foi homenageado com o nome de uma escola no distrito de Caporanga.

O mesmo sentimento de decepção com a mudança do monumento histórico tem a família Vidor, pois o primeiro nome estampado na placa em homenagem aos expedicionários é o do soldado santa-cruzense Antônio Vidor, o “Ico”. Da lista, ele foi o último “pracinha” vivo. Morreu em janeiro de 2017, aos 92 anos.

Vidor com as filhas (Silvete no centro); ele chegou a ser entrevistado pelo jornal em 2015

“A memória está desaparecendo. Antes, o monumento já estava servindo como depósito de lixo”, diz Maria Silvete Vidor, uma das filhas de Antônio. “É um desaforo a praça praticamente

Vidor na Segunda Guerra Mundial

desaparecer com o comércio de lanches. Nossa família está indignada e não aceita nenhuma mudança naquele monumento”, disse. Silvete, inclusive, estava disposta a conversar com o

comerciante que vai instalar um contêiner no espaço da escultura, para explicar a posição da família.

O combatente Antônio Vidor concedeu entrevista ao jornal em 2015, dois anos antes de sua morte. Ele desembarcou na Europa em 1943 e serviu no primeiro batalhão, segundo ele o mais perigoso. O santa-cruzense também estava no contingente que alcançou o Monte Castelo, a maior vitória brasileira em terras italianas na Segunda Guerra Mundial.

De volta ao Brasil, comprou um caminhão com o dinheiro que ganhou como indenização por servir na FEB e chegou a ser jogador profissional da Esportiva Santacruzense. Durante muitos anos, porém, continuou ouvindo o barulho de canhões e metralhadoras imaginárias. 

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 26 de julho de 2020