Beto Magnani: ‘O cometa’

Histórias do Magú

 

O COMETA

 

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— Pra que ver cometa? Que diferença faz em nossas vidas um cometa passando?

— É raro. Esse só vai passar de novo daqui a seis mil anos.

— E daí?

— Sabe por que o ouro é valioso?

— Porque é precioso.

— Por que é precioso?

— Por que brilha?

— Não. É precioso porque é raro. Difícil de encontrar. Como os cometas. Que também brilham.

— Todo mundo falava do cometa Halley quando eu era criança. Falavam que ele era metade do céu quando passou. Achavam até que era o fim do mundo.

— A última vez que ele passou foi em 1986.

— Eu sei. Mas eu estou falando de antes. Do começo do século passado. Porque quando ele voltou em 1986 eu não vi cometa nenhum! Todo mundo falando, todo mundo indo pro meio do mato procurar o bendito, mas nada de dar para ver. Foi uma frustação.

— Eu também não consegui ver o Halley em 1986. Agora só em 2062. Ele volta a cada setenta e seis anos.

— Teremos mais de cem anos em 2062.

— Eu sei. Mais um motivo para irmos direto do cartório ver o cometa que está no céu agora.

— Se a fila resolver andar a gente vai. É a quinta vez que venho reconhecer firma de assinatura dos outros por causa desse maldito processo.

— Conheço um lugar ótimo. Vou sempre lá para ver o por do sol.

— Você é doida. Pra quê ver por do sol?!

— Doida é você que vem toda hora no cartório.

— Faz parte da vida.

— O por do sol também.

— Tive um namorado que também adorava ver o por do sol. Faz tempo já. De vez em quando ele ainda aparece. É igual o cometa.

— E estrela cadente? Você já viu?

— Já não vi varias vezes. Só os outros vêm. Quando olho, já foi.

— Uma das coisas mais belas da vida é olhar para o céu, contemplar uma estrela e imaginar que muito distante existe alguém olhando para o mesmo céu, contemplando a mesma estrela.

— Falou a “Paz e Amor”!

— O Bob Marley disse isso.

— Tá vendo, coisa de maluco.

— Olhar para o alto faz bem. Me sinto parte. Fico pensando que daqui até as estrelas não tem ninguém na frente.

— Aqui ainda tem sete. Chamaram mais um agora.

— Se eu pudesse montaria nesse cometa e iria embora.

— Depois que você reconhecer a firma da sua assinatura você pode ir para onde você quiser. E montada em quem você quiser.

Eu também estava na fila, um número à frente delas, para tirar a segunda via de uma certidão. Desisti depois que ouvi a conversa (pois é, não resisti). Tinha me esquecido do tal cometa. Salvo por elas, resolvi deixar o documento para o dia seguinte. Levantei e joguei a senha da fila no lixo. Elas comemoraram discretamente. Fui imediatamente à procura do astro. O sol se pôs. Encontrei. De fato sem nada entre a gente. Só espaço. E vida. (Magú)

  • Publicado na edição impressa de 26/07/2020