Mulheres se tatuam cada vez mais

A tatuadora Gleicy Kellen, mulher do também tatuador Wilhan 'Kurt'

Tatuador diz que tabu entre sexo feminino e tatuagens tem sido quebrado, inclusive dentro da profissão

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Há nove anos ele marca a pele e, muitas vezes, a vida das pessoas com tinta. Wilhan da Silva ganhou espaço no mercado e foi apelidado por pessoas próximas de “Kurt”. O apelido prevaleceu e, hoje, é majoritariamente conhecido em Santa Cruz do Rio Pardo pelo codinome.

Começou em outras épocas da tatuagem, quando as tintas e os estúdios não tinham a tecnologia de que dispõem hoje. Sempre buscou qualidade, garante Kurt, mas as coisas mudaram muito com o passar dos anos.

O tatuador Wilhan ‘Kurt’ durante sessão no estúdio

Um dos fatores que transformaram o setor foram, aliás, os próprios clientes. Se há cerca de dez anos o número de mulheres que buscava era relativamente baixo, hoje é difícil determinar quem é maioria nos estúdios. “A procura feminina é muito grande”, cita.

A mudança também se deu no estilo de tatuagens. “Antes, mulheres preferiam tatuagens pequenas e mais escondidas. Hoje isso ainda prevalece. Mas há também quem queira uma arte que esteja à mostra no corpo”, cita.

Segundo o tatuador, o mercado de trabalho também tem se mostrado muito mais receptivo a pessoas tatuadas do que no passado. “A mudança de consciência foi grande. E as tatuagens também ganharam mais qualidade de anos para cá”, explica.

As mulheres, com o passar dos anos, também ganharam espaço no mercado das tatuagens. Anos atrás, aliás, Kurt conheceu Gleicy Kellen — uma aspirante à profissão. Hoje, os dois dividem espaço no estúdio “Heart” e são casados.

Ela também atende a uma grande demanda, composta sobretudo por mulheres, que se sentem mais confortáveis com o atendimento feminino. “Imagino que seja uma relação de confiança”, diz Kurt. Principalmente porque há tatuagens também em locais íntimos.

Tatuagem produzida por Gleicy entre os seios de uma cliente

Há muita procura jovem pelo serviço. Segundo Kurt, os pais também são mais receptivos à tinta na pele hoje em dia. “Muitos até acompanham os filhos nas sessões”, diz. “Alguns deles, depois de ver o trabalho no filho, marcam sessões”, lembra. “As pessoas veem as tatuagens como arte”.

É procedimento comum, por exemplo, filhos ganharem de presente de 18 anos uma tatuagem. Outros, mediante autorização de responsável, fazem mesmo antes de completar a maioridade.

Em geral, mulheres costumam tatuar frases ou elementos — como flores. Um dos locais mais comuns é na região da costela ou em alguma das pernas.

A maior diferença delas — quando comparadas aos homens — é a busca por harmonia nas tatuagens corporais. “Até porque, imagino, as mulheres cuidam mais da estética”, afirma.

“Algumas chegam a estudar se tal tatuagem vai ficar boa em tal lugar. Ou se uma nova combinaria com aquela que já existe”, explica.

Parte deste trabalho também é feito nos estúdios. “Cabe ao tatuador dar conselhos e estudar caso a caso”, diz Kurt, que também é o responsável por planejar o desenho. “As pessoas me mandam e eu produzo. Se aprovam, fazemos”.

O tatuador, que planeja abrir um estúdio em Ourinhos assim que a pandemia der sinais de que vai acabar, também diz que há uma grande procura por tatuagens que escondam características corporais, como olheiras ou estrias. Chegou a se inscrever para um curso sobre o tema, mas ele foi suspenso em função do novo coronavírus.

Porém, o casal não sentiu uma grande queda no faturamento durante a pandemia. “As pessoas seguem buscando por tatuagens”, cita. Um dos motivos seria a segurança. Antes, dentro dos estúdios, o uso de máscaras já era obrigatório porque a tatuagem é um procedimento delicado. “Álcool em gel também”, lembra. “A Covid só intensificou os protocolos de segurança que nós do setor já seguíamos”, diz.

 

  • Publicado na edição impressa de 26 de julho de 2020