Pandemia faz empresário de Santa Cruz virar artesão

Cláudio Sales observa pássaros que esculpiu em seu ateliê no Parque das Nações

Músico e dono do mais tradicional “trenzinho” da região, Cláudio Sales foi obrigado a “aprender” artesanato na quarentena

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Desde que começou a pandemia do novo coronavírus, Cláudio Benedito Sales, 55, trocou a cabine de seu jipe, onde trocava as marchas enquanto transportava crianças, pelo ateliê que montou num barracão do Parque das Nações, onde manuseia argila e tintas. Como o “trenzinho” que animava as crianças está sem atividades na quarentena, Cláudio começou a fazer réplicas de pássaros, verdadeiras obras de arte. E deu certo.

Na verdade, Cláudio já havia feito algumas obras de artesanato, mas usando madeira. Em vez de pássaros, esculpia imagens. “Isto foi há uns 20 anos e era mais como hobby. Algumas imagens, como uma de São José, foram leiloadas em evento beneficente”, lembra.

MULTICORES — Pica-pau, arara, tucano e bem-te-vi são algumas das espécies transformadas em esculturas coloridas

Com o trabalho interrompido pela pandemia, há um mês ele decidiu voltar ao artesanato, desta vez amassando argila. Na verdade, Cláudio nunca teve muita intimidade com este tipo de matéria prima, pois só usou argila algumas vezes. No curto período, entretanto, já fez mais de 100 pássaros, de todos os tipos e cores.

Mas por que a escolha pela argila? “Eu estava num bar em Ourinhos e vi uma escultura que me chamou a atenção. Fui perguntando, tirei fotos e logo descobri onde comprar o material”, explicou.

A escolha pelos pássaros não foi por acaso. “Minha primeira obra foi um pássaro preto para presentear meu pai, pois adora. Aprendi a gostar de aves por causa dele. Meu pai chegou a ter 13 pássaros pretos quando era liberado manter em casa. Quando foi proibido, ele soltou todos”, contou.

Claro que Cláudio Sales cometeu erros nas primeiras esculturas. Algumas chegaram a rachar porque, segundo ele, a argila não era de boa qualidade. Hoje, ele faz réplicas de tucano, pica-pau, arara, periquito, coleirinha, andorinha, canários e outras espécies, até mesmo sob encomenda. “Para montar um pássaro na argila, levo uns quatro minutos”, disse, garantindo que já cronometrou o trabalho.

Mas o molde é só o começo, pois depois é preciso lixar a escultura e retirar todas as imperfeições. Cláudio não usa nenhuma forma, pois dá forma à argila com a ideia que vem na cabeça. Às vezes, usa fotografias da internet para fazer um pássaro diferente. “É tudo na unha mesmo“, brinca. As pequenas pernas dos pássaros são pregos ou pedaços de ferro.

RETOQUE FINAL — Cláudio diz que a pintura, última etapa de cada obra, é a atividade mais prazeirosa

Para o retoque final, o artista usa tinta acrílica. Para encontrar a ideal, teve de pesquisar sobre a mais adequada. “Esta tinta não é muito barata, mas o resultado é muito bom”, garante.

Aliás, a pintura é a parte preferida de Cláudio. “Na verdade, existem milhares de espécies no mundo todo. Então, posso usar qualquer cor que certamente vai existir um pássaro igual”, diz.

Cláudio Sales usa o barracão de sua propriedade, no Parque das Nações, para produzir as esculturas. É um local silencioso e, segundo ele, propício para a criação. Em todos os cantos, há pássaros coloridos pendurados, a produção do artista em um mês. “Preciso fazer um estoque antes de começar a vender”, diz.

Cláudio já começou a expor suas obras no Facebook, na página “Pássaros Art”. É lá a primeira vitrine para comercializar as esculturas. Será a renda de Cláudio Sales enquanto o “trenzinho” de Santa Cruz não volta às ruas.


TRADIÇÃO — O “trenzinho” de Cláudio Sales, uma tradição em Santa Cruz

Artista já tem mais de
70 músicas registradas

Esculpir em argila não é o único dom de Cláudio Sales. Músico há anos, ele já compôs mais de 100 canções, a maioria sobre Santa Cruz do Rio Pardo. Destas, registrou cerca de 70 para garantir os direitos autorais. Há muitas canções com temas religiosos, inclusive uma famosa sobre a “Nossa Senhora de Sodrélia”, contando a história de um milagre que aconteceu no distrito no século XIX.

A canção até hoje anima festas religiosas em Sodrélia e é baseada em fatos reais que emocionam os moradores do distrito, especialmente os mais velhos. Segundo a história, uma imagem negra de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada num matagal por um lavrador, que a levou para sua casa. Algum tempo depois, ele cedeu a imagem para uma pequena capela construída perto do povoado, nas águas da Figueira.

Anos depois, uma tragédia: o lavrador perde a única filha, a pequena Zoraide. Enquanto o velório transcorria na residência do casal e a tristeza se abatia sobre Sodrélia, moradores foram até a capela e pediram um milagre. De repente, um forte odor de flores invadiu toda a região e a população saiu às ruas chorando, desta vez de alegria.

De acordo com a história que os moradores mais antigos conhecem de cor e salteado, Zoraide, a menina, levantou-se do caixão. A canção conta toda a história, numA melodia suave e emocionante.

Cláudio Sales, na foto durante modelagens, fez uma pausa na música

Cláudio também já compôs músicas para as paróquias de Ourinhos — do “Vagão Queimado” — e de São Pedro do Turvo. O artista contou que, quando começou a pandemia, a inspiração musical não fluiu totalmente. “Por isso comecei a esculpir pássaros na argila”, explicou.

O dom musical, porém, é praticamente um hobby. A renda maior do empresário é o “trenzinho”, que há anos transporta crianças pelas ruas de Santa Cruz do Rio Pardo. O forte é o período de Natal, que Cláudio ainda não sabe se vai se repetir em 2020 por causa da pandemia.

Durante o ano, o trenzinho funcionava nas férias escolas, no aniversário da cidade e quando alguma escola particular contratava os serviços de Cláudio Sales. Tudo, porém, foi paralisado pelo vírus que atormenta o mundo.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 26/07/2020
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