Reservatório de usina reduz vazão do Pardo em Santa Cruz e região

Na ponte que liga o centro à Estação, era visível a baixa no Pardo: na sexta-feira, o rio amanheceu com nove metros de vasão por segundo em vez dos 30, como é normal; a Sabesp regional alertou prefeito e o deputado Madalena

Lago da futura hidrelétrica começou a ser formado, reduziu drasticamente o nível do rio Pardo em Santa Cruz e preocupou Sabesp, diz superintendente

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O rio Pardo, no trecho que banha Santa Cruz do Rio Pardo e Ourinhos, teve seu leito reduzido em mais de um metro nos últimos dias. É o resultado do fechamento das comportas da futura PCH (Pequena Central Hidrelétrica) em Águas de Santa Bárbara, iniciada na segunda-feira, 27. A medida é para formar o grande lago que vai acionar as turbinas da usina “Ponte Branca” para gerar energia elétrica. A empresa responsável é a “PB Produções Energéticas”.

A ONG “Rio Pardo Vivo” combateu durante anos a instalação de hidrelétricas ao longo do rio Pardo, um dos únicos não poluídos do Estado de São Paulo. As inúmeras manifestações conseguiram barrar a construção de pelo menos três hidrelétricas no município de Santa Cruz do Rio Pardo.

No entanto, a “Ponte Branca” de Santa Bárbara já havia recebido todas as autorizações para iniciar a construção, inclusive ambientais. As obras começaram há pelo menos três anos, com a desapropriação de uma extensa mata e o corte de milhares de árvores. Os ambientalistas sustentam que o total de energia que será gerada pela futura PCH não compensa o enorme dano ambiental.

VAZIO — Com um metro a menos em seu nível, pedras e até subsolo do rio Pardo puderam ser vistos em alguns trechos (Foto: André Fleury)

O deputado Ricardo Madalena (PL) chegou a apresentar em agosto de 2017 um projeto para proibir a construção de PCHs em toda a extensão do rio Pardo. Apesar de aprovado na Comissão de Justiça e Redação, a proposta não tramitou a ponto de chegar ao plenário porque houve discordância no grupo de líderes. “Eu consegui aprovar a proposta em todas as comissões, menos no colégio de líderes”, afirmou o deputado.

Em 2017, aliás, havia uma liminar da Justiça Federal de Ourinhos impedindo a construção da hidrelétrica em Águas de Santa Bárbara. A medida, porém, foi derrubada em junho daquele ano pela instância superior em São Paulo. Na época, o desmatamento no município já atingia o equivalente a 80 campos de futebol.

Membro da ONG Rio Pardo, o ecologista Luiz Carlos Cavalchuki disse que a empresa responsável pela “Ponte Branca” não teve o cuidado de avisar a região localizada abaixo do Pardo. “Eles divulgaram um comunicado, através do Facebook, em Águas de Santa Bárbara e Iaras, informando que o reservatório começaria a ser formado. Mas não alertaram a região abaixo, que utiliza o rio Pardo para captação de água, como Santa Cruz do Rio Pardo e Ourinhos. Há também agricultores e pecuaristas que recorrem ao rio para projetos de irrigação”, disse.

De acordo com Cavalchuki, que é funcionário da Sabesp, um dia depois do fechamento das comportas em Santa Bárbara o nível do Pardo em Santa Cruz baixou. “Na terça-feira, ao invés dos 30 metros por segundo que é o normal para esta época, o rio amanheceu com nove metros por segundo”, disse.

Luiz Carlos diz que houve preocupação da Sabesp em Santa Cruz. “O sistema em Santa Cruz possui uma técnica especial, que é a captação de água mais profunda e no meio do rio. Houve uma paralisação de quatro horas, mas sem danos para o abastecimento na cidade”, disse. A “Ponte Branca” concordou em reduzir o nível de fechamento das comportas.

Segundo consta, engenheiros do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) do Estado passaram a monitorar o enchimento do lago em Santa Bárbara e as consequências para a região. “Eles estiveram em Santa Cruz e a ONG Rio Pardo Vivo também está analisando o fato, pois nós estamos numa época ruim, sem chuvas e com uma vazão muita baixa”, explicou. Cavalchuki contou que algumas propriedades rurais da região foram obrigadas a paralisar a captação de água.

As informações são de que a barragem deve demorar uma semana para ser totalmente abastecida. Enquanto isto, o Pardo começa a exibir sua baixa vazão, com pedras aparecendo ao longo do leito. Na estação de captação de água da Sabesp, os pequenos diques de pedras também ficaram expostos.


Pedras ficam à vista com o rio Pardo apresentando baixo nível (Foto: André Fleury)

Sabesp alerta deputado,
que aciona autoridades

 

O deputado Ricardo Madalena (PL), de Santa Cruz do Rio Pardo, informou na sexta-feira, 31, que recebeu um alerta do superintendente da unidade da Sabesp do Alto Paranapanema, Ivan Sobral de Oliveira, relatando o problema de vazão no rio Pardo na região que fica abaixo de Águas de Santa Bárbara. Segundo a mensagem de Ivan Sobral, o fato nunca foi observado nos mais de 30 anos de operação da Sabesp em Santa Cruz, nem mesmo nos fortes períodos de estiagem.

Sobral também alertou Madalena de que a situação poderia comprometer o abastecimento de água em municípios como Santa Cruz do Rio Pardo e Ourinhos. O superintendente comunicou que levou o caso ao conhecimento do prefeito Otacílio Parras (PSB) e pediu a intervenção do deputado estadual.

O deputado Ricardo Madalena (PL), que avisou autoridades sobre o fato

Ricardo Madalena avisou o superintendente do DAEE em São Paulo, que por sua vez enviou uma equipe, inclusive de engenheiros, a Santa Cruz do Rio Pardo e Águas de Santa Bárbara. “Fiquei muito preocupado com esta falta de água no município”, disse, “e pedi uma solução imediata para o impasse”.

Na tarde de sexta-feira, o deputado foi informado pelo próprio superintendente do DAEE, Francisco Eduardo Loducca, de que a empresa responsável pela hidrelétrica foi alertada sobre a ocorrência nos outros municípios e mudou o procedimento para abastecer a barragem. De acordo com o comunicado de Loducca, a empresa garantiu que o problema não voltará a se repetir.

 

  • Publicado na edição impressa de 2 de agosto de 2020