Pandemia: Cras ‘Betinha’ cria projetos alternativos

A psicóloga Antiella Carrijo Ramos, que planejou o projeto das cartas (Foto: André Fleury)

Instituição lançou o ‘Cartas para Você’, projeto de textos da comunidade

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Sem a presença física dos usuários, o Cras “Betinha”, no bairro de São José, está procurando alternativas criativas para o atendimento dos moradores dos bairros da região, como Maristela, Bom Jardim e Divineia. Diretora da instituição há alguns meses, Lorena Salandin Soares disse que o grande desafio do Cras na pandemia foi manter algum tipo de atividade. Surgiram, neste cenário, projetos como distribuição de kits para crianças, concurso de quadrilha junina pela internet.

Um dos projetos é mais antigo, comandado pela psicóloga Antiella Carrijo Ramos, que mantém a comunicação remota através das cartas. A ideia foi possível porque Antiella tem há anos um grupo de mulheres do Cras através do aplicativo whatsapp. Na pandemia, o grupo tem a internet como ferramenta para implementar os projetos.

No começo do ano, o Cras lançou o projeto “Utopia”, com a fotógrafa Fernanda Botelho, residente no Canadá e que estava em férias em Santa Cruz. O objetivo era promover uma exposição, que foi suspensa quando começou a pandemia. “Todos os trabalhos coletivos foram suspensos e começamos a pensar em novos projetos. Eu imaginei mandar uma foto de papel e uma carta para cada mulher. Mas o retorno foi muito positivo, também através de cartas”, contou.

Foi o primeiro passo para montar um “correio comunitário”. Com a ajuda de duas voluntárias da Divineia e Bom Jardim, surgiu o “Falavila Cartas para Você”. Na verdade, não é uma ideia nova, mas que foi adaptada na pandemia. “Nós já fizemos algo semelhante em 2015, trabalhando exatamente com as cartas. Naquela época, nós promovemos uma troca de cartas entre os abrigos de Santa Cruz do Frei Chico e outro em Ipaussu, envolvendo crianças. Deu muito resultado”, contou.

Antiella disse que a pandemia afetou muito o grupo de mulheres que costuma frequentar o Cras. “Algumas alertam sobre os problemas de outras, que ficaram tristes sem o convívio direto. Então, eu comecei a escrever diretamente para elas, procurando acalmá-las e dando esperança para ir à luta”, contou. A psicóloga começou a receber respostas e as mensagens aumentaram. As voluntárias se encarregaram de entregar as correspondências.

“Nós estamos dependentes da tecnologia para a comunicação. Mas quando se escreve a próprio punho, é uma oportunidade de pensar exclusivamente naquela pessoa, é uma coisa muito pessoal. Dá um sentido diferente”, diz Antiella. A psicóloga escreveu cerca de 30 cartas e a ideia foi ampliada para outros grupos.

Outro projeto é a escrita coletiva no grupo de mulheres do whatsapp. Começa com um tema proposto por Antiella e todas vão escrevendo. Há dias, por exemplo, a atividade foi “o que você aprendeu no gruo de mulheres”. Cada uma escreve um pouco e, no final, todos são agrupados num só texto. A penúltima etapa é a publicação coletiva, onde o texto final é discutido e comentado. Depois, o artigo é publicado nas redes sociais, junto com um mosaico de imagens das mulheres.

Para Antiella, a atividade serve, inclusive, para avaliação do pensamento das mulheres sobre o Cras. “É importante saber o que elas pensam. É emocionante porque elas relatam que passeios proporcionados pelo Cras foram datas marcantes na vida delas. Outra escreveu que aprendeu a ter voz”, disse a psicóloga. Há relatos de cura de depressão.

Bianca, uma das voluntárias (Foto: André Fleury)

Bianca dos Santos Sanches é uma das voluntárias na entrega das cartas. “Quando recebi a minha, me emocionei muito. Eu ainda não escrevi, mas meus quatro filhos escreveram para a Antiella e as outras tias do Cras”, disse. Bianca disse que já escreveu cartas — “há muitos anos” — e vê na iniciativa uma forma mais pessoal de comunicação. “Hoje, pelo Correio, só chegam contas e boletos”, brincou.

“Reinventando”

A diretora Lorena Salandin Soares considera que o projeto das cartas ajuda a despertar mulheres que não tiveram as mesmas oportunidades na sociedade do que outras. “Nós estamos nos reinventando neste novo cenário. Com isso, estamos promovendo outros trabalhos com atividades remotas. Afinal, não sabemos ainda quanto tempo isto vai durar, mas precisamos manter os vínculos”, afirmou.

A diretora do Cras “Betinha”, Lorena Salandin Soares: “reinventando” (Foto: André Fleury)

Lorena cita, por exemplo, a distribuição de kits a crianças e idosos. “São atividades que devem ser feitas em casa e depois devolvidas”, explicou. O kit é didático, com desenhos, palavras cruzadas e material para pintar ou escrever. Este mês, por exemplo, haverá um concurso sobre fantasias relacionadas às quadrilhas julinas. São fotos com os membros caracterizados com trajes de quadrilha. “Haverá até premiação”, contou Lorena.

“É um momento novo para o qual não existe receita. É óbvio que isto vai passar e nossas atividades não podem parar, assegurando os direitos desta população”, disse.

 

  • Publicado na edição impressa de 2 de agosto de 2020