Fotógrafo dá visibilidade ao mundo ‘trans’

Fernando Reis, na redação do jornal, onde descobriu seu amor pela fotografia (Foto: André Fleury)

O santa-cruzense Fernando Reis iniciou um projeto de fotos para mostrar a beleza trans para o mundo da moda

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Um simples contrato da Natura com o transexual Thammy Miranda, para participar de uma campanha para o “Dia dos Pais”, foi suficiente para provocar milhares de críticas e escancarar um tabu de parte da sociedade brasileira, que reluta em aceitar a diversidade de gênero.

Thammy, na verdade, sequer vai aparecer na campanha publicitária, pois sua atuação será restrita às redes sociais. Mas o anúncio provocou milhares de críticas ferozes contra a empresa de cosméticos. Em Santa Cruz do Rio Pardo, porém, um profissional do ramo fotográfico luta contra este tipo de preconceito.

É o fotógrafo Fernando Reis, 24, que nas últimas semanas lançou um projeto para produzir fotos de ‘trans’ com o objetivo de melhorar o acesso delas ao mercado de trabalho. Além de uma campanha para reduzir o preconceito, Fernando também mantém suas atividades numa época em que as cerimônias que geralmente requer fotógrafos estão suspensas pela pandemia.

Fernando já é um fotógrafo requisitado de eventos e ensaios em Santa Cruz do Rio Pardo. Ele era diagramador do DEBATE em 2013 e conta que foi na redação do jornal que aflorou seu gosto pela fotografia. “Eu via os profissionais manuseando as imagens e me apaixonei pela fotografia. Fiz cursos e decidi seguir este caminho”, contou.

Mesmo os ensaios individuais, permitidos na pandemia, são mais difíceis e precisam seguir medidas rigorosas de higienização e distância. Alguns “ books” são diferenciados, como sessões sensuais com mulheres mais maduras ou acima do peso. “O resultado aumenta a autoestima destas mulheres. Hoje, elas já estão sendo mais valorizadas pela moda e pela publicidade em geral”, garante.

O novo projeto é para mostrar as “trans” 24 horas por dia. “Na verdade, elas são tidas como pessoas escondidas, que só saem à noite. Minha proposta é dar visibilidade, pois, se gostam de ser chamadas de mulher, precisam dar a cara no dia a dia e se mostrarem à sociedade”, explicou o fotógrafo.

Um dos ensaios mais recentes — e com grande repercussão — foi feito com a trans Alana Jenner, de Ourinhos, que sonha em ser modelo (leia nesta página). “Ela adora o mundo da moda e o ensaio é uma maneira de abrir portas”, disse Fernando. “Na verdade, a Alana é uma militante, que luta contra o preconceito e pelo direito das mulheres”, ressaltou.

Alana Jenner, 21, que sonha em seguir carreira na moda, como modelo (Foto: Fernando Reis)

Fernando Reis explicou que o ensaio com Alana também abriu portas para ele. “Outras mulheres trans de toda a região já me procuraram para a produção de ensaios. Elas querem se sentir bonitas e se apresentarem à sociedade. Portanto, virou um projeto com o objetivo de valorizar a beleza trans”, afirmou.

O fotógrafo reconhece que há muito preconceito sobre o mundo trans, mas que todos devem se empenhar contra isto. “Há uma ligação muito forte com o mercado do sexo, principalmente porque é difícil alguém empregar uma trans. A Alana, por exemplo, não se sujeita a usar o corpo e quer trabalhar normalmente num emprego. Quer, na verdade, acordar cedo, ir trabalhar, picar cartão e receber salário. E muitas trans pensam do mesmo jeito”, disse.

O maior obstáculo, segundo Fernando Reis, é mesmo o preconceito. “Às vezes, parte das próprias pessoas que, com razão, têm medo das reações. Há um setor da sociedade que vê esta situação como aberração, influenciando outras pessoas. Precisamos começar a quebrar este tabu”, lembrou.


Alana durante ensaio no centro de Ourinhos feito pelo fotógrafo Fernando Reis, de Santa Cruz do Rio Pardo

‘Meu sonho está
no mundo da moda’

Alana Jenner, 21, mora em Ourinhos e reconhece que se descobriu trans “um pouco tarde”, aos 13 anos. Nasceu Felipe, mas sempre se identificou com o sexo feminino. Chegou a sofrer bullying na escola, mas “tirava de letra”. Quando conheceu uma amiga “drag queen”, percebeu que ali estava sua maior identificação. Até então, imaginava-se gay. “Eu até disse: olha, eu sou igual a você, me sinto assim também”, contou.

Ainda adolescente, começou a se maquiar, primeiro com muito receio. Alana, na verdade, teve sorte. “Minha família aceitou a situação com muito carinho. Isto foi muito importante e eu comecei a me envolver com pessoas da moda”, disse. Ela também teve o incentivo de muitas amigas. “Sempre disseram que eu tenho dom”, admitiu.

O fotógrafo Fernando Reis, que fez um recente ensaio com Ala, confirma. “Uma das sessões foi no calçadão de Ourinhos. Ela desfila com garbo, é muito feminina e se destaca em qualquer lugar. A Alana praticamente parou o calçadão durante as fotos”, afirmou.

O problema para se colocar no mercado, segundo Alana reconhece, é o preconceito. “Obviamente isto existe. E muito”, admite. Ainda como Felipe, por exemplo, ela chegou a trabalhar num restaurante. Depois, como trans, nunca mais conseguiu emprego, apesar de distribuir currículos no mercado.

Seu sonho é, um dia, acabar nas passarelas da moda. Inspiração não falta, pois Alana conhece a história de Léa T., filha trans do ex-jogador Toninho Cerezzo e, hoje, uma das mais requisitadas modelos de passarelas na Europa. “Claro que se eu atingir o ramo de divulgação, estará ótimo, pois também gosto muito”, disse, sobre as chamadas influencers.

A modelo, por enquanto somente fotográfica, sabe que só poderá alcançar suas metas nos grandes centros, como São Paulo ou Rio de Janeiro. No entanto, quer ao menos iniciar uma carreira em Ourinhos e região. “Na verdade, os grandes centros têm uma visão diferente. Certa vez, encontrei uma mulher trans fazendo compras no mercado em São Paulo, cena que normalmente não se vê no interior. Mas meu sonho passa primeiro por ficar conhecida na região”, contou. “É um desafio”.

Ainda jovem, Alana gosta de fotos sensuais, “mas nada exagerado”. Entretanto, ainda não conseguiu se cadastrar numa agência ligada à moda. “É muito caro, tudo envolve dinheiro”, lamenta. No futuro, pensa em se casar e constituir uma família

 

  • Publicado na edição impressa de 2 de agosto de 2020