Trecho da Rumo de Ourinhos ficará fora da ‘relicitação’

Ferrovia acabou na região, destruída após a privatização

Aurélio Alonso
Especial para o DEBATE

A malha ferroviária da região de Ourinhos, no lado paulista da concessionária Rumo, não será contemplada com a relicitação, conforme comentei em artigo publicado neste jornal na semana passada. Essa via foi desmembrada para a Malha Sul quando a Ferroban repassou à América Latina Logística (ALL).

A Rumo divulgou em 21 de junho à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) um pedido de relicitação da concessão da Malha Oeste, trecho de 1.945 quilômetros que vai de Mairinque até Corumbá (MS), perto da fronteira com a Bolívia. Esse trecho possibilita o acesso ao porto de Santos por bitola estreita.

Na semana passada, questionei se haveria a possibilidade da reativação do trecho da malha na região de Ourinhos que são os trilhos da antiga Sorocabana, atualmente desativado entre Rubião Jr. (Botucatu) e Presidente Prudente. A ferrovia só está em plena atividade em Ourinhos no trecho para o Paraná, sentido Londrina. O diretor do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas Ferroviárias Zona Sorocabana, Claudinei Messias, explicou nesta semana que a divisão da malha da antiga Sorocabana em duas partes inviabilizou economicamente a ferrovia na região de Ourinhos, Assis e Presidente Prudente.

A ALL se fundiu à Rumo em 2015. Em tese, a reativação desse trecho de Ourinhos interessa a Santa Cruz do Rio Pardo. Os arrozeiros da cidade já utilizaram o transporte ferroviário para trazer o arroz do Rio Grande do Sul, cujo custo do frete na época era mais em conta em relação ao rodoviário.

Na ocasião, houve investimentos pelos empresários santa-cruzenses em transbordo em Ourinhos e Ipaussu, mas isso acabou depois da suspensão da operação do trecho da ferrovia pela concessionária. Messias comentou que se busca a reativação desse trecho, justamente pelo potencial de transporte do arroz.

A ferrovia no estado já estava em declínio sob concessão estatal, mas a privatização em 1998 não ajudou a modernizar ou melhorar a ferrovia. Embora atualmente seja a Rumo responsável pela malha ferroviária, a antiga concessionária ALL transformou esse trecho numa ferrovia “fantasma” por interesse estratégico de monopolizar o transporte pelo traçado paranaense, de acordo com o sindicato.

A Ferroban comprou em 1998 a Fepasa no processo de privatização e entregou a parte da malha da antiga Média Sorocabana entre Rubião Júnior a Presidente Epitácio à ALL. A privatização foi mal feita por permitir a divisão da malha Paulista. O Sindicato dos Ferroviários chegou a denunciar a empresa na Procuradoria de Justiça Federal por retirar trilhos T-50 (que suporta tonelagem maior) e substituí-los por T-35 na região de Presidente Prudente.

A Justiça determinou a reposição dos trilhos, acolhendo a denúncia do MP federal. Segundo Messias, foram aplicadas multas pesadas, mas a concessionária sempre recorreu da decisão na Justiça. O ramal Paranapanema que liga Ourinhos (SP) a Jaguariaíva (PR) também está sem operação desde 2001 e praticamente abandonado.

OUTRO LADO

Sobre o trecho desativado da Malha Sul, em Ourinhos, a assessoria de imprensa da Rumo enviou o seguinte esclarecimento: “O trecho em questão é considerado de baixa densidade, uma vez que não apresenta demanda por transporte ferroviário em volume necessário para viabilizar sua operação. O mesmo ocorre com o chamado Ramal Paranapanema. O processo de incorporação à Malha Sul do trecho entre Presidente Epitácio e Rubião Júnior, que inclui Presidente Prudente e é de bitola métrica, teve início em 2000. Já o trecho entre Ourinhos e Cianorte, também de bitola métrica, sempre pertenceu à Malha Sul.”

* Aurélio Alonso é jornalista e tem passagem pelo DEBATE

  • Publicado na edição impressa de 09 de agosto de 2020
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