Zanata: ‘Batista da Silva’

Batista da Silva

 

João Zanata Neto

Batista da Silva, que nunca foi parente daquele Silva, foi despertado pela engenhoca do tempo. Cedo como sempre, foi tomando as primeiras providências para ir ao trabalho. Pensava ele nestes momentos de agitação doméstica o quão bom era ter um trabalho para o sustento da família. Deveria dar graças por esta benção na capelinha do bairro ainda hoje, decidiu. A vida é dura, mas vale a pena, matutava. Quanto tempo já trabalhei, pensou. Em breve vou poder descansar pelo resto dos meus dias.

Assim demovido por estes pensamentos, partiu para o trabalho. Percorreu com o seu carro o mesmo caminho de todos os dias. Eram muitos quilômetros de ruas, cruzamentos, semáforos e uma longa fila de engarrafamento. Mas, quando o universo conspira contra todas as boas intenções, um dos pneus do seu velho veículo furou. Apesar do aborrecimento, consegue resolver o problema. Por isto ele sempre sai mais cedo. Ele não se permitia atrasos. O relógio pica-cartão sempre chancelou o seu cartão antes de todos os outros. O Agenor, seu chefe, o tinha como o exemplo da pontualidade. No trabalho, ele era de poucas palavras. Sempre dizia aos colegas: quem fala muito no trabalho, dura pouco na empresa. Evitava até o pessoal do sindicato. Baderneiros, dizia sempre quando intentavam uma greve. Era sobre tudo o funcionário que todo patrão sonhava. Apesar de ser considerado pelos colegas como o traidor dos movimentos paredistas, ele não se importava com tais queixumes. A virtude é o que garante o pão na mesa, dizia.

Contudo, para o universo, furar um pneu do carro era pouco. Batista chegou na hora exata, mas o portão da fábrica estava fechado. Os seus colegas estavam do lado de fora, agitados e só se ouvia um rumor. Uma greve de novo, pensou Batista. Apesar disto, caminhou resoluto entre todos direto para o portão. A sua teimosia gerou protestos e empurrões. O persistente Batista foi contido pela multidão. “Imbecil. Homem teimoso. Não pode entrar. Não é uma greve, não está vendo?! É um lockout. A empresa fechou. O Agenor nem deu as caras!” Batista, quando deu conta do ocorrido terminou por chorar, talvez, por raiva ou, talvez, por indignação. “Sai daqui seu idiota, vá para casa!” Ofendido e enxotado como cão sarnento, ele partiu dali sem rumo.

Um tempo depois, Batista passou a trabalhar como pracista. Ele se tornou amargo e quieto, levando e trazendo muita gente. “Senhor Batista, o senhor é sempre quieto. Não que me incomode, mas como sou seu freguês de longa data, tomo a liberdade de lhe perguntar o que este silêncio não quer dizer?”. “O meu drama é o de todos, seu Eulálio. O senhor que está no auge da carreira, um executivo de multinacional, sempre com pressa para resolver os problemas da empresa, ainda não teve tempo para pensar esta vida louca. Nós que somos as engrenagens desta economia, trabalhamos duro por quase nada. Em tudo há corrupção, troca de favores e malandragem. Enquanto damos um passo para frente, os governos dão dois passos para trás. Mas, em breve, vou me livrar desta e ser feliz com o que me resta de sanidade. Que a vida é dura nós já sabemos desde pequenos, não é mesmo? O problema é que ela não é justa. E é isto que nos cala.”.

Batista faleceu pobre e virtuoso poucos anos depois da sua aposentadoria. Morreu bem cedinho para não se atrasar com direito a um enterro de pouco gasto. Foi enterrado quase anônimo se não fosse pela única coroa de flores que recebeu. Foi uma homenagem do seu Agenor. 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”

  • Publicado na edição impressa de 02 de agosto de 2020