Franco Catalano: Modernidade líquida

Modernidade líquida

 

Franco Catalano

CULTURA   Na era das mídias digitais, do instantâneo e das fotos no celular que nunca são reveladas, buscamos alguma solidez e materialidade em nossas vidas. Nesses dias de isolamento, tenho passado — ainda que tente me ponderar — mais tempo nas redes sociais. Existe um perfil no Instagram que explora o legado da arquitetura moderna na Europa e Américas chamado Okoloweb. Este perfil, gerenciado pelo teórico de arte Adam Stech, reúne fotos e análises das maiores obras-primas da arquitetura, muitas delas desconhecidas pelo público em geral. Sempre me encanto com suas postagens e busco saber mais sobre as casas e edifícios que estão exibidos em sua página. Salvo muitos deles em meus favoritos do aplicativo e, por medo, também faço prints da tela do meu celular, pois, caso um dia a conta seja encerrada, não perderei aquele valioso material.

Stech lançou recentemente um livro reunindo fotos e análises de suas descobertas. O problema? O livro é escrito em tcheco e, apesar das diversas tentativas minhas de adquirir o livro, o autor nunca me respondeu. Meu desejo profundo de ter este livro em mãos, creio eu, se refere ao fato de — como diz o filósofo — vivermos em uma modernidade líquida. Quem aqui nunca perdeu as fotos que guardava em um aparelho celular que foi danificado? Para mim, uma criança dos anos 90, para meus pais e avós, fotografias sempre significaram ir até uma loja e revelá-las, garantindo vida eterna àquelas lembranças.

Agora com microchips, armazenamento na nuvem, pen drives e HDs temos uma falsa sensação de que teremos aquilo eternamente, mas e se o sistema colapsar? Há anos não revelo uma foto. No caso de uma pane tecnológica mundial, as únicas fotos recentes que se salvariam são as poucas que tenho de festas e casamentos daquelas máquinas que entramos fazendo palhaçada, sabem?

Não muito tempo atrás, descobri uma ilustradora romena que faz caricaturas de si mesma que são idênticas à minha Mariana. Cassandra Calin ilustra situações cotidianas banais, como a luta para entrar em uma calça jeans, o cabelo armado em dias úmidos, ou a vontade de dormir até mais tarde em dias frios. Ela e Mariana são parecidas física e comportalmente, sendo que muitas vezes a Mariana compartilha em seu perfil pessoal os cartoons das situações vividas pela artista e seus seguidores se confundem, achando que os desenhos são dela. No dia dos namorados deste ano, coincidente com a pandemia, tentei fazer uma surpresa para aliviar a tensão da quarentena, mas me frustrei. Enviei diversas mensagens para o perfil de Cassandra, na tentativa de comprar algumas de suas artes, mas nunca tive retorno. Seria muito fácil entrar em seu site salvar algumas de suas divertidíssimas imagens e imprimi-las em uma gráfica. Mas, e a ética? Como artista, respeito muito o direito autoral sobre a propriedade intelectual, por isso fiquei a ver navios.

Essas duas situações ilustram bem a tal modernidade líquida do filósofo polonês Zygmunt Bauman. Dizemos que vivemos em um mundo ultraconectado, mas nem mesmo comprar um livro e uma caricatura eu consegui. Mariana me acusa de ter nascido velho, por causa de certos pensamentos conservadores, mas confesso que tenho saudades de um tempo que não vivi onde as coisas eram mais tangíveis e as relações mais profundas.

P.S.: Este texto foi escrito por comando de voz, durante meu café da manhã. Como um idiota, fiquei falando sozinho com a tela do celular enquanto as palavras, pontos e vírgulas surgiam magicamente. Antes, a escrita era à mão; depois surgiram as máquinas de escrever; então vieram os computadores e smartphones; e agora, para escrever, nem mesmo precisamos saber escrever. É o fim dos tempos!

 

  • Publicado na edição impressa de 2 de agosto de 2020