Plinio Rigon: “Retomada será gradual e difícil”

O artista santa-cruzense Plinio Rigon anda de bicicleta em Milão, na Itália

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Se Plínio Rigon, o artista plástico, dramaturgo e escritor santa-cruzense que está na Itália desde 2014, viveu dias de pânico em meados de março, quando o coronavírus lotava as Unidades de Terapia Intensiva do país aonde foi morar para reencontrar suas origens familiares, hoje a situação é um pouco diferente.

Na visão de Plinio, “a Itália voltou a ter vida, alegria e esperança”. Mas viver no país europeu ainda exige preocupação: o vírus ainda circula na península, onde seis pessoas morreram na última quinta-feira, 13.

Mas já não há militares nas ruas e nem o lockdown decretado. “Tudo está sendo retomado, mas muito devagar”, conta. Nas ruas é possível encontrar pessoas com e sem máscara. Ainda assim, porém, permanecem alguns hábitos adotados no auge da pandemia no país. “Algumas pessoas atravessam a rua para não passar ao seu lado. É o medo que ainda toma conta dos italianos”, relata.

As escolas retomarão as aulas no próximo dia 14, mas as consequências ainda são incertas. “Ninguém sabe o que vai dar”, conta Plinio. Segundo o santa-cruzense, a maioria dos infectados na Itália são, hoje, os jovens, que frequentam baladas ao ar livre, mas desprovidos de máscaras.

Na emissora estatal RAI, por exemplo, o governo italiano tem anunciado com frequência campanhas para incentivar o uso de máscaras. “Se você, jovem, pega o vírus, pode não sentir. Mas você leva para seus pais, seus avós”, diz um dos recados.

Agosto é o mês em que os italianos fecham as lojas e vão para a praia ou a regiões montanhosas. De fato, alguns foram. Mas há lojistas e empresários que seguem trabalhando. “Tudo está em liquidação”, conta Plinio.

O país não sofreu grande impacto financeiro por duas razões. A primeira delas, diz Rigon, é que o governo concedeu uma ajuda a toda a população. Em segundo lugar há o fato de que todos fazem economias ao longo dos anos. “Então deu para segurar as pontas”, afirma o artista.

Apesar de a Itália viver um relaxamento internamente, ainda há um controle rígido nas fronteiras e nos aeroportos. Se alguma pessoa apresentar alta temperatura corporal, por exemplo, deve ficar isolada durante 14 dias.

O turismo, uma das principais fontes de renda da Itália, deixou a desejar neste ano. Com voos suspensos, o governo também tem tomado medidas para fortalecer trabalhadores que vivem disto. “Você vai à praia, por exemplo, e reserva um hotel por três dias. Um deles você paga. O outro, recebe de graça. E o terceiro quem paga é o governo local, como a prefeitura”, explica Plinio.

Ele esteve em Milão na última semana. Mas a histórica cidade italiana se encontrava vazia. “É a Itália se reencontrando com a Itália”. A retomada, segundo o santa-cruzense, está sendo difícil.

Plinio não crê, no entanto, que o mundo passará por grandes mudanças mesmo depois de uma vacina. “O que vai persistir, imagino, é o medo, o receio”, conta.

O artista voltou a receber amigos em casa depois de um longo período confinado. “Plinio, devo usar máscaras?”, perguntam em sinal de respeito – que se tornou comum na península. Nas praias, uma distância separa os guarda-sóis.

O que assustou a Itália, diz Plinio, foram as imagens veiculadas nas redes sociais e na imprensa internacional dos caixões sendo levados em caminhões lotados. “A morte chegou perto. E assustou a todos”, diz.

Sua produção artística e literária, por ora, está parada. Mas ele pretende voltar a escrever assim que possível. Professor de teatro, já planeja novas peças também. 

 

  • Publicado na edição impressa de 16 de agosto de 2020