Pai, filho e o amor pelo sorvete americano

Da direita para a esquerda, Reinaldo Mariano, Robert da Silva e José da Silva exibem o sorvete tipo americano (Foto: André Fleury)

Mais do que nos laços familiares, a relação está no espírito empreendedor e na força de vontade

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Uma pequena porta na rua Farmacêutico Alziro de Souza Santos carrega a história de José Roberto da Silva, 57, e do filho Robert da Silva, 22. Nascido e criado em Santa Cruz do Rio Pardo, José Roberto se via, ainda jovem, trabalhando nas fábricas de calçados que, anos atrás, tinham grande força no município. Mas o chão de fábrica não era seu destino. E ele sabia disso.

Começou cedo. Sem condições financeiras na época, ainda adolescente levava dinheiro para ajudar em casa. O valor, porém, era irrisório e servia tão somente para ajudar no pagamento das contas. Não havia regalias — era raro sobrar algum dinheiro mesmo para comprar sorvete.

Visionário, como dizem alguns amigos, sempre teve espírito empreendedor. Chegou a abrir um bar durante um certo período. Acabou não dando certo e fechou o estabelecimento. Nos dois anos seguintes trabalhou como jardineiro na limpeza pública de Santa Cruz. Atuava na praça Carlos Queiroz.

Mas nada lhe tirou o sonho de ter o próprio negócio. Foi quando, com algumas economias, comprou sua primeira máquina de sorvete. Americano, claro, porque, para José, o gelado remete à infância. O mesmo ele ouve de seus clientes.

Sorvete americano no momento em que sai da máquina

Essa trajetória foi acompanhada pelo amigo e genro Reinaldo Mariano, que diz sempre ter visto no sogro um potencial empreendedor. “Era um sonho do passado que, enfim, está se concretizando”, conta.

Talvez pela proximidade com o local, José começou vendendo na mesma praça onde trabalhava. Foi na “Feira da Lua” que José conseguiu os primeiros clientes, muitos dos quais são, até hoje, fiéis ao “Sorvete do Robert” — o nome da marca é uma referência ao filho.

Não é por acaso. Robert é quem dá o toque final ao sorvete. Por não carregar leite ou químicos na receita — apenas água e suco, o que facilita para os intolerantes a lactose —, o processo de derretimento é mais rápido.

Na casquinha ou no cascão, não importa. O sorvete precisa estar reto. “Só Robert tem essa técnica ao retirá-lo da máquina”, diz o pai, orgulhoso.

O carrinho de sorvete se manteve intacto. Toda quarta-feira, na praça Carlos Queiroz, estavam Robert e José Roberto. Com a suspensão das atividades em função da pandemia do novo coronavírus, porém, as atividades foram interrompidas.

Sem previsões de retorno, há cerca de um mês José alugou um pequeno espaço na Farmacêutico Alziro de Souza Santos. Foi a solução encontrada para amenizar os impactos da crise.

O retorno, segundo diz, tem sido positivo. Desde que começou no ramo, aliás, uma Bíblia o acompanha. Desde sempre, afinal, mantém sua fé por dias melhores. Não seria diferente enquanto o mundo enfrenta uma crise. 

 

  • Publicado na edição impressa de 23 de agosto de 2020