Pascoalino: ‘Saiba um pouco do seu amigo secreto’

Saiba um pouco do seu amigo secreto

 

Pascoalino S. Azords

“O Nelson não brinca de amigo secreto”. Essa era uma das poucas certezas naquela repartição pública. O Nelson não tinha nada contra festas, pelo contrário. Em plantões de finais de semana favoráveis ele provia de churrasco os colegas, ali mesmo na sua sala, com uma engenhoca elétrica que graças a um espelho d´água fazia com que a carne ficasse assada sem fazer fumaça — e sem gosto de churrasco, para os mais exigentes. O Nelson rachava a cerveja, embora abstêmio, e quando todos se iam pisando alto, ele, sóbrio e sozinho, limpava aquilo tudo. Mas amigo secreto era outra história, e a gente respeitava. Mesmo sabendo que os dois lados sairiam perdendo: a confraternização, sem o boca suja a destilar palavrões, e um de nós, porque o Nelson era generoso na hora de presentear. Ele não economizava na encomenda de whisky a contrabandistas idôneos e de cachaças frescas de São Luiz do Paraitinga para a alegria de seus irmãos e amigos mais chegados. Mandava trazer presunto cru e queijos fortes do Mercado da Cantareira e dizia, sem pedantismo, que sonhava com uma lagosta que ainda não tinha comido por não saber por onde começar.

Pouca gente se deu ao trabalho de perguntar ao Nelson as razões da sua ojeriza pelo amigo secreto, eu fui um desses poucos curiosos. Era um caso antigo. Quando trabalhava de caixa num desses bancos que já não existem mais, o Nelson era intimado a participar da brincadeira. Ele caprichava na compra, mas em troca só ganhava peças de liquidação, bugigangas embrulhadas pra presente. Como era jovem, foi se chateando com aquilo um pouco mais a cada ano. Houve uma vez em que a camiseta não serviu e o gerente da Pernambucanas não quis trocar! Pior era ver o gerente do banco dar como presente os piores mimos que ele (gerente) tinha recebido de clientes endividados, de empresas ascendentes (mas nem tanto) e caloteiros notórios. Facas perigosas que iam parar nas mãos trêmulas de estagiárias inocentes, garrafas de whisky suspeito para jovens imberbes… Uma vez, o sovina teve o desplante de entregar um descanso de bíblia para a guardinha, sua amiga secreta da vez! O episódio coincidiu com o da camiseta que o Nelson não conseguiu trocar e ele jurou que não participava mais daquela palhaçada. Os colegas do banco admiraram tamanha coragem – eles não sabiam que o Nelson tinha prestado concurso para um cargo público. O salário era ridículo, mas lá o regimento não obrigava ninguém a brincar de amigo secreto.

Passaram-se os anos, o Nelson perdeu os cabelos, botou óculos, trocou de carro, mas manteve a palavra. Com tamanha determinação, ele perdeu o amigo secreto da caneca. Porque dessa vez ficou estabelecido que o presente seria uma caneca. E para facilitar a vida dos participantes, afixaram na copa uma lista de aparente contraditório: “Saiba um pouco mais do seu amigo secreto”. À frente do nome do participante anotava-se o time, a hobby e a bebida preferida de cada um. Surpreso, constatei que 25% dos colegas não torce para time algum e que os corintianos formam uma maioria silenciosa de 50%. Na hora da revelação, entre tantos colegas presentes, lembrei-me do Nelson ausente. Eu poderia lhe dizer que a essa altura da vida pouco importa o presente trocado. Quem ali precisava de mais uma caneca em casa? Essa brincadeira vale pela hora da revelação e pela descontração que impera a seguir, quando se soltam as gravatas e os cadarços. É interessante ver todos se esforçarem para externar uma sensibilidade que durante o resto do ano parece adormecida debaixo das mesas ou esquecida no fundo das gavetas da repartição. Como insinuar um nome enumerando sutilmente as qualidades ou características do seu portador? Comove-me que alguém tenha perdido um pouco do seu tempo para pensar no que falar sobre o outro – o seu amigo secreto. E quando falta originalidade, é só apelar para a sua descrição física ou do traje. Mesmos nessas situações sempre sobra uma frase, mesmo que uma, mesmo que curta, que soa aos ouvidos do descrito como uma prova de atenção, um gesto de carinho.

Como essa forma de amigo secreto temático agradou a maioria, ficou combinado que no ano que vem o presente é um par de chinelos. Pode ser até um guarda-chuva — tô dentro!

 

  • Publicado em 27/12/2009 e repercutido na edição impressa de 6 de setembro de 2020