Antiella Carrijo Ramos: ‘Eu também não sei’

Eu também não sei

Antiella Carrijo Ramos

Há quase seis meses estamos com nossos filhos em casa. O tempo foi passando e a euforia foi dando lugar à angústia de não saber o que vai acontecer. O que pareciam férias deu lugar a um longo e angustiante período de espera. Não há planos para futuro, o retorno à normalidade me parece distante.

Tenho vivenciado cotidianamente as dificuldades das crianças em lidar com a imprevisibilidade da vida. Em casa, entre excessos de raiva, necessidade de carinho, gritos e abraços, percebo minhas filhas crescendo e lidando com a realidade como podem e conseguem. É notável a falta que sentem da escola, dos amigos, da família, da prima que nasceu e elas nem conhecem. No trabalho percebo as dificuldades das crianças para enfrentar o distanciamento, a carência de beijos e abraços. As chamadas de vídeo, cartas e desenhos trocados com os amigos, as ligações telefônicas, as aulas remotas não dão conta da socialização que a infância necessita, não diminuem a saudade nem a falta que o mundo faz.

As crianças estão sofrendo. Muitas delas não conseguem descrever as emoções que as tocam nesse momento e quando encontram brechas para expressar o que sentem, seja num abraço apertado ou num grito de raiva, nem sempre encontram adultos com disponibilidade afetiva para ouvi-las e ajudá-las. Nós, adultos, tão absorvidos pelas dificuldades da realidade e pela rotina do cotidiano, nem sempre conseguimos ser acolhimento.

As crianças precisam compreender a realidade, do jeito que ela é, para que consigam elaborar suas angústias e medos. Mas será que a criança tem a capacidade para realizar isso sozinha? Obviamente não. A criança necessita do adulto para mediar sua relação com o mundo.

Por isso, cabe a nós criar as condições necessárias para a escuta e a acolhida das demandas da infância. Fazer isso não é fácil! Eu mesma nem sempre estou disponível e não tenho todas as respostas, mas acredito que a nova realidade nos coloca diante da oportunidade de nos conectarmos às nossas crianças e descobrirmos juntos a melhor forma de viver esse momento. E nesse percurso não há problema em admitir “eu também não sei, vamos aprender juntos”.

* Antiella Carrijo Ramos é psicóloga em S. Cruz

 

  • Publicado na edição impressa de 6 de setembro de 2020